O princípio do fim

“Das duas, uma: ou as empresas de sondagens são incompetentes – e não deviam existir!; ou são permeáveis a outros interesses (de quem lhes paga!) – e deviam ser severamente punidas”

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A política portuguesa merece ser estudada pela NASA. Ainda há poucos meses, o inefável José Magalhães, acolitado pelos partidos de esquerda, propôs um controlo, por parte do Estado, das “fake news”, que tanta polémica gerou em virtude da censura que o mesmo propunha, chegando a ser pedida a fiscalização da sua constitucionalidade. Grosso modo, no crescendo de preocupação com o proliferar incontrolado de notícias falsas que pudessem induzir o leitor em erro, pretendia-se a criação de um organismo que procedesse a uma verificação (houve quem lhe chamasse censura e manipulação de informação) de determinadas notícias. Ao que parece, tais preocupações e cuidados excessivos só terão lugar em situa-
ções “ad hoc”, que sejam desfavoráveis aos visados – isto se os visados forem eles. 

Com efeito, durante largos meses fomos “comendo” com sondagens, desconhecendo o seu rigor, os seus critérios e a sua credibilidade. Apesar de as mesmas terem falhado em toda a linha, não vi ninguém classificar as mesmas de “fake news” ou pugnar, fosse pela sua abolição, fosse por legislação muito mais apertada, rigorosa e altamente punitiva. Apesar de se tratar de matéria de prognose e que encerra a natural volatilidade dos eleitores e possibilidade de verificação de factos posteriores com especial gravidade nas intenções de voto, certo é que as mesmas incidem sobre matéria altamente sensível: a percepção que cada eleitor possa ter sobre a (in)utilidade do seu voto, condicionando-o. Das duas, uma: ou as empresas de sondagens são incompetentes – e não deviam existir!; ou são permeáveis a outros interesses (de quem lhes paga!) – e deviam ser severamente punidas. 

A noite de domingo foi bem demonstrativa da disparidade dos prognósticos feitos com conchinhas e folhas de chá da realidade do voto dos eleitores. Ficam em crise todos os cenários, conjecturas, previsões, teorias e demais exercícios adivinhatórios quanto à subsistência de Costa e (in)capacidade de Rio se lhe opor. Sem curar de introduzir, nesta fase, as consequências dos resultados eleitorais, é legítimo perguntar até que ponto podemos confiar nas sondagens que sucessivamente vêm dando a vitória ao PS a largos pontos do PSD. A falibilidade resulta muito mais de crença, percepção e (quiçá?) desejo humano, do que de erro técnico: enquanto houver queijo, há rato!

Cada partido fará a avaliação dos resultados das autárquicas como melhor lhe aprouver. Muito para lá dos dados objectivos, a ponderação individual que cabe aos seus responsáveis é como os fatos de alfaiate: feita à medida. Neste corta e cose, a obra resulta da criação do estilista e não da encomenda do cliente. Se tem ou não colete, se aperta com dois ou três botões ou se o tecido é de melhor ou pior qualidade jamais serão imperativos da arte, antes opções de estilo. À parte disso, só mesmo quando o tecido é insuficiente é que o artífice se mostra obrigado a reconhecer o insucesso. Ainda assim, mesmo este é relativo e, a maior parte das vezes, inconsequente. Sendo certo que o PS ganhou o maior número de câmaras e juntas, perdeu substancialmente no comparativo com 2017. Perdeu em muitas capitais de distrito, capitulando também em quase todas as cidades de maior densidade populacional. E perdeu a capital do país, negacionista no que toca à ciência das sondagens. Rio ganhou uma vida extra que lhe permite uma gestão mais folgada até ao próximo Congresso, apesar do fraco apoio a Moedas ou a José Manuel Silva e do manifesto erro na Figueira, sendo que estas são muito mais vitórias próprias do que do PSD. 

Xicão cumpriu os objectivos do partido e arrasou a concorrência interna, que fica agora com margem muito reduzida. Do lado dos derrotados, primeiro a CDU, com uma perda expressiva de votos, com excepção de Lisboa, numa tendência que se vem a acentuar. João Ferreira é, cada vez mais, o senhor que segue, numa sucessão que se avizinha próxima. O BE teve uma derrota estrondosa, que nem a eleição, pela primeira vez, de um vereador na Invicta consegue disfarçar. Contudo, Catarina, em prestação cénica, não se demite, nem aceita responsabilidades. A incapacidade para apresentar candidatos em grande parte das câmaras, a “débâcle” de alguns dos seus pesos pesados e os resultados bem abaixo do Chega parecem não fazer mossa na Comissão Política que se eternizará até catabolizar. Também a IL, que mostrou ainda não ter andamento para estas andanças, com dois erros de palmatória: o primeiro, ao não apoiar Moedas, negociando em troca vários lugares na vereação lisboeta. Ao invés, preferiu apresentar candidato próprio, num processo conturbado e com resultados próximos da insignificância; o segundo, ao não apresentar candidato próprio no Porto, sujeitando-se a uma colagem a Moreira, já pronunciado e perdendo a maioria. Aqui, ainda mais grave, porquanto tinha Mayan Gonçalves, saído de uma boa prestação presidencial, que poderia capitalizar, tendo em conta que Rui Moreira não se poderá recandidatar. Também o PAN não conseguiu fazer flores, arrancando um resultado muito comezinho para quem já tem algum peso parlamentar. 

Num plano completamente diferente – e para lá das grandes vitórias individuais – o Chega, que se afirma de forma inequívoca como a quarta (terceira, nalguns municípios) grande força partidária com implantação nacional. Para que se compreenda a dimensão do feito, há que perceber e distinguir vários factores. Desde logo, num cenário comparativo com os resultados do BE nas primeiras autárquicas a que aquele concorreu; depois, não esquecer que o BE resultou de uma fusão de diversos partidos históricos na nossa democracia, propondo-se a agregar várias facções de esquerda, enquanto o Chega emerge de uma cisão de um homem só; por último, sublinhando que este resultado surge num cenário em que o resto dos partidos à direita também cresce, pelo que os seus votos encontram apóstolos num mapa político transversal. Não creio que a não vitória de Ventura em Moura abale esta asserção. O arrojo político do candidato resultou em números bastante dignos e não muito distantes dos obtidos pelo partido vencedor. 

Uma nota especial para Medina. Louve-se o discurso de derrota, muito mais elevado do que o de campanha; o assumir pessoal e intransmissivelmente o resultado serve apenas de parangona, fazendo um bonito rodapé nos espaços noticiosos. Sacrificou-se, ilibando o partido de responsabilidades. Mas não é verdade! Se Putin perdeu o seu informador em Lisboa, Costa perdeu o seu delfim, a sua câmara e o seu bastião. Muito mais do que o simbolismo que representa a câmara da capital, Costa sabe que o motivo da derrota lhe assiste mais do que ao próprio autarca. A política do Governo, as mentiras, os compadrios, os Magalhães, os Cabritas, a manipulação da comunicação social, a incumbência dos seus ministros e outros quejandos, foram a ciclovia da hecatombe. E nem o discurso pausado e a expressão seráfica de que lançou mão enquanto secretário-geral escondiam o fel que lhe corria nas entranhas. É que perder Lisboa significa perder toda uma gigantesca máquina de emprego e de interesses ao serviço do aparelho. Significa perder o equilíbrio na balança eleitoral interna que Pedro Nuno Santos passa a controlar, sabendo-se sôfrego de poder. O pernóstico Costa sabe que é por aqui que o edifício começará a ruir e que não tardará provará do veneno que aplicou a Seguro. ■