O PS julga que o dinheiro é deles e faz questão de o dizer

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A propósito das autárquicas que terão lugar este fim-de-semana, não me recordo de ver campanha tão suja e tão rasteira como esta. Muito mais que os ataques pessoais, directos ou com recurso aos mais elaborados esquemas de quem sempre operou na sombra e se mexe bem na lama (confesso ter poupado ao leitor a expressão que tinha em mente e que considero mais adequada), assistimos a dois fenómenos particulares. Um Governo que tira os incompetentes ministros do mofo dos seus gabinetes e os empresta a um périplo pelo país como se fossem ursos amestrados. Só neste país se aceita e tolera que o executivo pare para andar duas semanas em campanha e arraiais. Lá andam os desgraçados, a mando do aparelho, a calcorrear vilas que esqueceram enquanto governantes, para prometerem tudo e um par de botas enquanto governantes. E conseguem fazer isto com um sorriso nos lábios e sem um pingo de vergonha na cara. Do outro lado, o que se vê dos candidatos socialistas, é um deserto de ideias, uma mão cheia de nada de projectos e sempre a mesma premissa: votem em nós, porque nós é que temos o dinheiro da “bazuca”!

O postulado, ecoado de norte a sul, só não se verificará, não por vontade deles (socialistas), mas porque ainda existem algumas instâncias que não compactuam com abusos desta monta. O PS julga que o dinheiro é deles e faz questão de o dizer, sem que isso cause especial comichão a um povo adormecido, uma oposição inerte e uma comunicação social moribunda e alimentada ao soro de injecções de capital público. Tome-se Lisboa como exemplo. Medina será, porventura, o mais fraco presidente da capital pós 25 de Abril. Herdou o trono, por sucessão, em regime hereditário, não de sangue, mas de militância. Aqui, o PS ombreia com o PCP, mas com toques de especial requinte, já que lhe cunha uma aparência democrática. Já no poleiro, Medina sucedeu-se em asneiras, refinou os tiques maniqueístas (em que ele representa o bem), deu (ainda) mais corpo a uma gestão autárquica caótica e despesista e mostrou-se incapaz de gerir a “res publica” da maior autarquia nacional. Os dois únicos méritos que se lhe conhecessem é ser amigo de Costa e de Putin. Naquilo que foram as sucessivas avaliações dos lisboetas ao seu mandato e à sua pessoa, Medina foi trucidado em toda a linha, perdendo largo em itens como a seriedade ou competência. Mas os lisboetas parecem preferir um incapaz conhecido a um capaz desconhecido. Medina candidato, fará nos próximos quatro anos tudo aquilo que Medina presidente prometeu e não fez nos últimos seis. Ninguém é avaliado pelo trabalho feito e, menos ainda, pelas promessas incumpridas. Das trinta principais medidas que Medina propôs na última campanha, cumpriu menos de dez. 

Em traços muito genéricos (até porque pretendo voltar a este tema mais tarde e de uma forma mais exaustiva), Rousseau defendia um contrato social como um pacto de associação de indivíduos para a criação de uma sociedade e, posteriormente, de um Estado. Ou seja, os eleitos comprometiam-se perante os seus pares a cumprir o que prometiam, sob pena de renúncia ou exoneração de funções. Essa premissa, “ex ante” do acto eleitoral funcionaria como um guia de conduta e um manifesto operacional. Cá pelo burgo não há qualquer consequência para o incumprimento, pelas vãs promessas ou pelo reiterado populismo eleitoral.

O fenómeno de ter duas caras na política, não sendo exclusivo dos socialistas, com estes atinge o seu apogeu: é que nenhuma delas é lavada! 

Costa, o Primeiro, não se coibiu de, em Maio deste ano, aplaudir e louvar a decisão de encerrar a refinaria da Galp em Matosinhos, considerando-a, inclusive, um exemplo para os desafios ambientais que se avizinhavam. Já Costa o secretário-geral, considerou um abuso, uma afronta, uma irresponsabilidade e um perfeito disparate o despedimento dos trabalhadores matosinhenses após o encerramento da refinaria, prometendo que Costa, o Primeiro, iria ter mão firme e exemplar no que respeita a tal decisão. Todos sabemos que nada fará e que este discurso inflamado terá as suas exéquias muito em breve, já que esgotou os seus propósitos: servir de arma de campanha para angariar mais votos! E assim é com todos os membros do Governo, desmedindo-se, desfazendo-se e desmultiplicando-se em promessas e soluções relativamente a problemas que os próprios criaram, apodando-se de cavaleiros andantes que combaterão o monstro cuja paternidade sempre negarão. E o povo come, porque à míngua de alimento até parece que os sonhos enchem a barriga! 

O que mais se estranha é que, constituindo as autárquicas um fenómeno excepcional no cenário político, pela sua abrangência territorial e pelo peso pessoal dos candidatos, permitindo composições políticas pouco ortodoxas (pense-se, desde logo, que são as únicas eleições em que são aceites candidaturas independentes), todos andem preocupados com negociações infrutíferas e espúrias de um orçamento de Estado que só verá a luz do dia daqui por um mês. É que para combater o regime e o “status quo” é preciso ter cara. E se uns têm duas, outros nem meia cara têm… ■