Vergonha Zero

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Ameaças de violência, abuso de poder, confusão entre actos oficiais e iniciativas partidárias, uso indevido de bens do Estado, infracções à lei, promessas mirabolantes e mentiras descaradas (ainda mais do que o costume) – de tudo isto foi feita a campanha eleitoral dos socialistas. Uma mistificação pegada. Vergonha, zero.

Os milhões dos outros

O primeiro-ministro António Costa, que por sinal é também o chefe do Partido Socialista, confundiu sistematicamente as suas funções governamentais com a militância partidária. De modo acintoso e provocatório, percorreu largos milhares de quilómetros em campanha, dando a entender que o voto nos candidatos locais do PS seria premiado com recompensas materiais para a região. Vários ministros o imitaram nesta batota, desdobrando-se em comícios, jantares e arruadas. 

A falácia mais constante nesta campanha de enganos foi o uso e abuso do PRR – o famigerado Plano de Recuperação e Resiliência, ou “bazuca”, que Costa exibiu com descaramento como se se tratasse de uma benesse socialista, quando toda a gente sabe que se trata de subvenções concedidos pela União Europeia, no valor total de 16,6 mil milhões de euros, dos quais 13,9 mil milhões a fundo perdido.

Vários candidatos do PS chegaram a afirmar que estar de boas relações com o Governo era um factor de vantagem para atrair as verbas da “bazuca” para os seus municípios. A candidata Inês Medeiros, por exemplo, chegou a dizer que “se o PRR resultar, o drama da habitação em Almada acaba em dez anos”.

Em cada terra, a receita de Costa repetia-se: vêm aí mais milhões para as empresas, milhões para as autarquias, milhões para as IPSS (e, já agora, votem no PS…). O abuso atingiu tais proporções que o líder socialista acabou por ser admoestado pela Comissão Nacional de Eleições, cujo porta-voz, João Tiago Machado, recordou ao primeiro-ministro “os deveres de neutralidade e imparcialidade dos titulares de cargos públicos”.

António Costa pouco ligou. “Escusam de tentar assustar-me com a CNE”, disse com enorme desplante. Todos os outros líderes partidários criticaram a sua atitude, mas Costa manteve calmamente a mistificação. No mesmo dia, na Madeira, afirmava que “apesar de as regiões autónomas serem 2,5% da população do continente”, vão receber “5% das verbas destinadas ao PRR”. E o arraial prosseguiu…

Promessas mirabolantes

Em Coimbra, onde as sondagens têm vindo a prever um empate técnico entre o PS (actual detentor da presidência da Câmara) e o PSD, o primeiro-ministro protagonizou um dos momentos mais escabrosos da já de si escabrosa campanha socialista. 

Discursando na cidade do Mondego, Costa prometeu que não levará “mais de três semanas” depois das eleições autárquicas de 26 de Setembro a desbloquear os problemas que têm impedido a construção de uma nova maternidade – algo que a actual ministra Marta Temido já havia prometido numa outra campanha eleitoral em 2015. A demagogia chocou até o cordato Rui Rio, que declarou “não ter memória de ter visto numa eleição recente descaramento desta ordem”.

Indiferente, António Costa rumou de seguida ao Algarve para aí anunciar que “os fundos europeus para a região vão mais do que duplicar”, graças à ‘bazuca’. E siga a dança!

Na estrada

A ida de Costa ao Algarve deu azo a mais um escândalo. Alguns jornalistas assinalaram a partida do primeiro-ministro de Lisboa e a sua chegada a Faro apenas 1 hora e 40 minutos depois. Patentemente, Costa viajara a uma média de 170 kms/hora, em flagrante infracção ao Código da Estrada. Curiosamente, a comunicação social do sistema esqueceu o assunto e o “acelera” não voltou a ser incomodado. Recorde-se que já em Julho o líder do PS fora apanhado a percorrer 300 quilómetros da A1, entre Gaia e Lisboa, em menos de 2 horas.  

Já a ministra da Saúde usou a viatura oficial do Ministério para se deslocar em campanha partidária ao Porto, o que configura o crime de “peculato de uso”. Em causa pode estar uma “violação do próprio código de conduta do Governo, da transparência da administração e da prossecução de interesse público”, disse ao ‘Observador’ Veiga e Moura, advogado e especialista em Direito Administrativo. “Terá que haver justificação e o primeiro-ministro deverá ser o primeiro a exigir essa explicação. A que propósito está numa acção do PS um veículo do Estado? Todos temos de exigir essa resposta”, disse ainda o jurista.

Tanto no caso do excesso de velocidade como no do uso indevido de bens do Estado, António Costa escusou-se a comentar.

Mais pauladas

O deputado socialista José Magalhães já tinha ameaçado os candidatos do PSD à Câmara do Seixal com “umas cacetadas terapêuticas”. Nada que fuja à norma num partido que tem no Governo um dirigente, Augusto Santos Silva, que se diz especialista em “malhar na direita”, e que tinha outro (o já falecido Jorge Coelho, paz à sua alma) que afirmava claramente que “quem se mete com o PS, leva”.

Para manter o baixo nível, a número dois da lista do PS à Junta de Freguesia de Loures, Sandra Jesus, escreveu nas redes sociais que, “às vezes, um par de estalos não fazia nada mal a muita garotagem que anda por aí”.

Mais explícito ainda foi o seu marido, Vítor Calado, militante do PS em Loures e activista destacado na campanha local, que ameaçou claramente: “Sei mais ou menos quem são os artistas, para a próxima semana vou estar no terreno e vai ser paulada nesses filhos da pt”. E repisou, em tom inequívoco: “Vamos ter uma conversinha”… 

Não têm mesmo vergonha. ■