O regulador de idiotas

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Quando uma ideia de génio é posta em prática por um ou vários idiotas, a probabilidade de a coisa descambar é elevadíssima. E, se há coisa pela qual os idiotas são conhecidos, é pela ausência de travões ético ou morais que aplaquem o efeito das suas decisões. Os idiotas sofrem ainda de uma outra particularidade: a anormal velocidade de reprodução. À semelhança dos coelhos Duracell duram, duram e duram. E – ao que parece – multiplicam-se como cogumelos. 

Um qualquer génio olhou para a podridão do regime e rapidamente concluiu que determinados sectores careceriam de regulação autónoma e independente, por forma a evitarem abusos, obstarem a práticas menos correctas, simplificarem processos e regulamentarem procedimentos. Em suma, privilegiar a transparência e isenção. Porquê? Porque se tratam de sectores facilmente permeáveis a interferências e decisões políticas e que, pela sua importância estratégica e efeito social deveriam estar fora de uma esfera despótica e dificilmente sindicável. Ideia de génio, portanto, capaz de arrancar aplausos pela simplicidade e lógica. Quem, então, para melhor aplicar uma ideia de génio? Uma cambada de idiotas, ora pois…

O resultado final é que tais entidades independentes, a quem cabe “controlar ou fiscalizar” o funcionamento do Estado, sejam nomeadas pelo próprio Estado. É mais ou menos como se a escolha do juiz de julgamento coubesse ao próprio arguido (onde é que eu já vi isto?). A chusma aplaude, porque é circo e a chusma gosta de circo…

No PS – que é caso clínico – a alegoria toma proporções épicas. O arguido não nomeia o juiz. O arguido é o próprio juiz. O que parece confuso é, na prática, uma melhor alocação de recursos e garante de decisões “à la carte”. Assim foi com Centeno, com Manuel Caldeira e assim será com Ana Paula Vitorino. Antes que qualquer regulador pudesse por em causa as decisões de APV, a ministra, nomeia-se APV, a reguladora, que se presume estar em pleno acordo com as decisões da primeira. Não tenha a senhora qualquer problema de dupla personalidade e a coisa tudo tem para resultar. Levantar questões de incompatibilidade ou de conflito ético, só mesmo por manifesta má-fé, está bom de se ver…

Quando deixarem de ser os idiotas a decidir, talvez percebamos que as nomeações para entidades que se querem isentas e independentes, com um papel verdadeiramente regulador, não deveriam ser efectuadas pelos interessados, antes pelo Presidente da República. Já agora – se não fosse pedir muito –, por uma questão de decoro e de honestidade intelectual consagrar um período de nojo relativamente a ex-governantes, bem como um limite salarial. É indecoroso e vergonhoso que um regulador fantoche possa receber mais que o Chefe de Estado.

É que há idiotas com sorte… ■