A CGTP tomou conta do processo negocial na AutoEuropa, a maior fábrica nacional, e o resultado é que a “luta” cega e ideológica voltou após 26 anos de paz institucional. O PCP quer mostrar a António Costa que ainda tem músculo, custe o que custar. Só que ao longo das décadas os comunistas deixaram um rasto de destruição que inclui empresas como a Lisnave, a Sorefame, os Estaleiros de Viana do Castelo ou a Fábrica da Opel na Azambuja. No fim, quem fica na miséria são os trabalhadores, enquanto que o PCP celebra as suas grandes “vitórias”.

António Costa e a sua geringonça preparam-se para uma ‘rentrée’ política dura. A pouco tempo das eleições autárquicas, o Partido Comunista, por via da central sindical que lhe é afecta, a CGTP, instalou a “luta de classes” na Autoeuropa, fazendo “xeque” (embora ainda não “xeque-mate”) ao Governo que supostamente apoia. Em causa está o controlo do processo de negociação laboral da AutoEuropa, um modelo histórico de paz social e de negociação pacífica entre trabalhadores e patrões, onde os sindicatos se mantiveram à distância.

Há 26 anos que não era convocada uma greve na AutoEuropa, mas o PCP quer agora pôr fim a tudo isso, de forma a aceder a mais uma situação de poderio. E a AutoEuropa é uma estrutura deveras importante para o País: sozinha, representa um por cento da economia nacional, vendendo produtos com um valor de 1,5 mil milhões de euros anuais ao estrangeiro.

Uma pequena vitória as tácticas do PCP já alcançaram. Apesar de ser política da direcção da Volkswagen apenas negociar directamente com a Comissão de Trabalhadores (CT) — eleita democraticamente pelos empregados para os representar — os sindicatos conseguiram finalmente infiltrar-se nas negociações ao mais alto nível. Esta era uma das exigências no jogo de poder da CGTP, tendo Arménio Carlos, secretário-geral da organização intersindical com fortes ligações ao PCP, dito claramente que a AutoEuropa “não pode deixar de se reunir com os sindicatos, tem que falar com os sindicatos porque são estes que representam os trabalhadores”.

Fernando Sequeira, coordenador demissionário da CT, foi claro ao avisar, em carta aberta, que no jogo de poderes da CGTP “vale tudo”, inclusive “desinformar os trabalhadores” para preparar o “assalto ao castelo”. E perguntou: o sindicato “dá mais importância à luta sindical, ou defende o emprego e as famílias que dele dependem?”.

Infelizmente, a história dá-nos uma resposta bem clara. Torres Couto, antigo secretário-geral da UGT, notou que os acontecimentos dos últimos dias são “uma jogada política clássica, já assisti a ela muitas vezes, mas nessa altura houve sempre um perdedor, os trabalhadores dessas empresas que acabaram por ir para o desemprego”.

Miséria comunista

A comunidade da Azambuja ainda hoje não recuperou do fecho da fábrica da Opel em 2006. Aberta em 1943, a Opel da Azambuja era a segunda maior fábrica de automóveis do País, e laborou pacificamente durante décadas até que uma sucessão de conflitos laborais em 2005 acabou por ditar o fecho da fábrica, lançando milhares para o desemprego.

Nesse fatídico ano, a General Motors, empresa proprietária da Opel, avisava repetidamente para os problemas que enfrentava (de facto, a GM viria a ser resgatada pelo Governo dos EUA em 2009) e que a fábrica da Azambuja era a única do grupo na Europa sem um acordo social. Face aos números que a empresa ia lançando, em alerta, a Comissão de Trabalhadores, dominada pela CGTP comunista, sustentava que “os trabalhadores” estavam sendo alvo de “uma acção de desinformação junto da opinião pública, que pretende difamá-los, classificando-os como irresponsáveis e insensíveis ao futuro da empresa”.

Nessa altura, o PCP lançou um “Comunicado aos Trabalhadores da Azambuja” em que os saudava “pela grande manifestação no passado dia 2 de Março em Lisboa, convocada pela CGTP”. Mas os problemas dos trabalhadores da Opel logo desapareciam para darem lugar à propaganda política: o que o comunicado visava, realmente, era passar a mensagem partidária: a promessa de que “o PCP tudo fará para denunciar estas políticas de direita do Governo PS”. Não esqueçamos que estes eram os dias “pré-geringonça” em que PS e PCP ainda não eram “amigos” de conveniência. Poucos meses após todas estas declarações, a fábrica fechou mesmo as portas.

Em 2016, um dos antigos supervisores, Armando Martins, publicou o livro “Conflitos Sociais”, sobre os acontecimentos que levaram à catástrofe. “A dada altura havia muitos conflitos entre os próprios trabalhadores, gente que queria trabalhar e outros, afectos aos sindicatos, que não deixavam” – recordou, notando que “na AutoEuropa a comissão de trabalhadores teve uma postura diferente e por isso a fábrica se mantém lá”. Pelo menos até agora.

O PCP e a CGTP seguiram alegremente para “outras lutas”, enquanto que a maioria dos antigos funcionários da Opel da Azambuja não voltou a conseguir ter emprego como aquele, cuja média salarial se situava acima dos 1500 euros.

Os túmulos

Mas a Opel da Azambuja não é o único local onde ficou enterrado o futuro de Portugal, bem como o bem-estar dos trabalhadores.

Em 1971 a Lisnave, empresa do Grupo CUF, inaugurava a maior doca seca do mundo no estaleiro da Margueira, a qual recebeu o nome do fundador da CUF, Alfredo da Silva. Tinha capacidade para navios com um milhão de toneladas, e colocava Portugal entre os grandes países na reparação naval. No entanto, em 1974 esteve na linha da frente das empresas a serem ocupadas pelos “revolucionários”. Chegou a tentar como modelo de negócio trabalhar para o bloco de Leste, tendo vários navios da URSS sido ali reparados a preço de “amigo”.

Quando a “normalidade” regressou, sucederam-se as greves e as crises, especialmente durante o Governo de Cavaco Silva. Em 1999, a empresa estava falida. Chegou a empregar 11 mil trabalhadores. Hoje é um resquício do seu passado, e todo o enorme complexo do que já foi em tempos a CUF (nacionalizada a pedido dos sindicatos) é hoje um grande amontoado de ruínas.

No sector metalúrgico, a Sociedades Reunidas de Fabricações Metálicas, mais conhecida como Sorefame, nunca recuperou da agitação. Antes de 1974 era um importante fabricante, entre outras coisas, de material ferroviário, que exportava para todo o mundo. Em 2001 fechou as portas após anos e anos de greves e crises.

Até mesmo uma empresa do Estado, os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, teve de ser liquidada após amontoar uma dívida de 300 milhões de euros, não conseguindo os estaleiros obter mais negócio devido ao que foi descrito como o “deficit de imagem terrível” que a empresa já tinha a nível internacional. Apenas alguns dos muitos casos num País que perdeu a sua indústria quase do dia para a noite, ficando destinado a viver só do turismo.

Oportunismo

Historicamente, o PCP e as suas organizações-satélite gerem o movimento grevista conforme o que é melhor para si, não o que é melhor para os trabalhadores. Aliás, não faltará muito para os comunistas começarem a colocar os apoiantes do Bloco de Esquerda de hoje no mesmo saco da “direita reaccionária”. Essa não é uma táctica de hoje.

Durante o PREC, após uma primeira fase em que defendia acerrimamente o “poder popular”, o PCP mudou de cassete quando começou a perder o controlo sindical. No dia 28 de Maio de 1975, face ao caos total em que se encontrava o País, o Comité Central do PCP fez um apelo público “contra as manobras da reacção”, onde denunciava “o conluio dos elementos mais reaccionários ainda não desalojados das suas posições” (ou seja, a direita e o centro-esquerda) com “grupos aventureiros ditos de esquerda” (ou seja, os antepassados do BE) e que esta aliança contra-natura estava a causar “o caos económico e a destruir as conquistas democráticas até agora alcançadas”. O PCP terminava com uma frase que deveria ser repetida por todos os jornais quando há uma greve dos transportes: “é necessário impedir que se arrastem os conflitos sociais, que a vida económica e social seja gravemente afectada por greves, que a desorganização da produção dos transportes e dos abastecimentos provoquem um amplo descontentamento”.

O que mudou? Os comunistas controlavam os Governos provisórios da altura. Quebrados esses poucos meses de PCP no poder, cujos efeitos ainda se sentem hoje, regressou a luta pura e dura, e hoje Portugal está repleto de empresas fechadas por culpa das tácticas de intransigência do PCP e da CGTP.

Tal como nos tempos do PREC, após fazerem a festa, eles seguem em frente. Quem fica para trás são os trabalhadores de quem o PCP se auto-intitula o único representante.

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