Rui Nabeiro foi esta semana a sepultar. Apesar de não ter honras de Estado, nas cerimónias fúnebres, este fez-se representar ao mais alto nível. Não precisando, mas entende-se, face à dimensão do empresário e, sobretudo, do homem. Pai, tio ou padrasto de toda uma região, de sorriso aberto, não negando uma palavra ou ajuda a ninguém e dono de uma visão empresarial sem paralelo. Assim, dificilmente se entendem as palavras de circunstância, que disso não passam. A maior homenagem que lhe poderiam fazer seria replicar os seus princípios, comungar da sua solidariedade e partilhar a sua resiliência. As duas horas que separam Lisboa de Campo Maior são muito mais do que isso. São duas décadas ou dois séculos. A raiana vila só conhece a capital de nome, tal a distância em tudo o resto. Nabeiro não tratou só de a encurtar, com a sua teimosia em criar o maior império português de café fora de Lisboa e do poder político, mostrando que o país vive bem sem ambos e o que estes representam. Quando Costa e o seu Governo pretendem coarctar as liberdades individuais muito para além do que se viu no Estado Novo, o Senhor Rui clamou pela mesma através do exemplo, demonstrando que a verdadeira força de um líder advém dos seus colaboradores e não dos servos, das sinergias e não das imposições, da dedicação e não dos compadrios, do mérito e não da subserviência. Esta gente louva o exemplo que diariamente teima em contrariar, porque nunca trabalhou na vida, limitando-se a decidir conforme os interesses pessoais e o que mais lhe convém no futuro próximo. Até a hipocrisia deveria conhecer limites!
Julgando pelas sondagens, pelas críticas, em catadupa, nas redes sociais e pelas, pouco fidedignas, mas profundamente demonstradoras dos estados de espírito de cada um de nós, conversas de café, é perceptível que Costa e o PS estão em queda desamparada. Tudo isto a contrastar com a maior parte da comunicação social que dá coberturas de rodapé ou de notas marginais a assuntos verdadeiramente importantes e que retratam o Portugal de hoje, reservando as capas, as centrais e os destaques para a máquina de propaganda do Governo, que traz boas novas “ad hoc”, nunca aprofundadas, sem direito a contraditório e em função do vento que sopra.
Nesse Portugal dos (tele)jornais e revistas do regime, não aparecem situações dramáticas, enquanto problemas endémicos, estruturais e transversais a uma sociedade cada vez mais doente, em agonia e ao som do estertor, apelando à solidariedade e espírito cristão de cada um de nós para ajudar a família A, desalojada e a viver na rua, de B, desempregado, a quem faltam os apoios sociais, ou de C, incapaz e abandonado à sua sorte. Ignora-se o aumento de pedintes nos semáforos, estacionamentos e à porta dos supermercados, as filas intermináveis para os bancos alimentares e a sopa do dia, o número de sem abrigo, sem precedentes, ou aqueles que vivem da caridade da Igreja ou de terceiros. Para não falar da pobreza calada ou dissimulada de um sem número de famílias que apenas faz uma refeição por dia, corta nos medicamentos, espaça os banhos tanto quanto pode e vive no limiar da saúde mental, passeando o esqueleto nos dias que se sucedem até que um deles seja, inevitavelmente, o último…
A crueza da verdade nega o país cor-de-rosa que nos querem vender. Os portugueses têm menos poder de compra, comparativamente aos parceiros europeus, do que o que tinham há duas décadas, sendo hoje o quarto a contar de baixo, tendo, nesse período, o terceiro crescimento mais lento da zona euro e sido ultrapassado por uma dúzia de países da OCDE. Em 2001 o salário mínimo nacional era, em percentagem face ao salário médio, de 51%. Hoje é de 63%. Ou seja, há muitos mais portugueses a ganharem muito menos, tendo o salário médio aumentado 4%, quando, na OCDE, esse aumento foi de 22% e tendo um quarto da sua população a viver com menos de 660,00 € por mês.
Se na década de 60 centenas de milhares de portugueses emigraram, fosse para fugir à fome, fosse para fugir à guerra, fosse por causa do regime político, hoje, no paraíso da década socialista, esse número ultrapassa o milhão, com a diferença de que quem emigra hoje são os jovens qualificados que, seguramente, não vão para as obras, limpezas, portarias e restauração como foram os seus pais e avós.
O Governo PS, quer em formato “gerigonça”, quer em formato maioria absoluta, cortou muito mais que a “Troika”, passando a despesa do Estado na Educação de 6,7% (com a “Troika”), para 4,6% (com o PS). Na Saúde, passámos de 7,5% para 6,2% (em 2015). O investimento público de 7,2% (em 2010) para 3,8% (em 2021). E não se admire que os marinheiros andem revoltosos e a colar peças das fragatas com adesivos ou cuspe, porque a despesa na Defesa atingiu o mínimo histórico de 1,7% (sim, em tempo de guerra!), quando era de 3,7% em 2010. O resultado disto é que Portugal ocupa o 56º lugar no “ranking” mundial da felicidade, numa lista onde figuram 137 países, tendo caído 22 postos apenas nos últimos dois anos.
Podemos continuar com as costumeiras falácias de que não são precisas reformas estruturais, bastando regressar aos níveis pré-“troika”, ou que Passos cortou muito mais do que o que devia. Ambas são profundas mentiras e terão enormes custos que importarão décadas a reparar. Com o profundo gravame que Costa conseguiu todos estes milagres na melhor conjuntura económica de sempre. É que para além dos muitos milhões de euros que a Europa por cá injecta de forma continuada e sem fim à vista (quase 120 mil milhões num quarto de século), as taxas de juro e o preço do petróleo atingiram mínimos históricos e assim se mantiveram durante largos anos e o turismo aumentou de forma exponencial, gerando um aumento brutal do PIB (sectorial), criando inúmeros empregos e investimento directo e indirecto. A incompetência generalizada, a falta de visão estratégica, as brincadeirinhas da TAP, da CP e o contínuo desperdício de dinheiros públicos culminaram nesta dura realidade que os apoios sociais mitigam e a comunicação social esconde.
Alguém se lembra da sopa dos pobres? Não tardará a ser ela a única coisa que nos alimentará o bucho… E, com sorte, um cafezinho do Nabeiro, para pôr na conta! ■




