Portugueses e africanos, com muita honra

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Existiu entre nós, desde pelo menos o século XVIII, total abertura à participação de africanos nas mais elevadas tarefas nacionais. É inegável que a mentalidade dominante, nesses séculos recuados, considerava os africanos impreparados para muitas missões de responsabilidade. Mas esse preconceito generalizado (aliás, muito mais forte nos outros países europeus do que em Portugal, país que desde o século XV mantivera contactos estreitos com outros povos e outras culturas) derivava sobretudo da observação do atraso tecnológico das sociedades africanas. Os africanos que se distinguiam certamente enfrentavam esse preconceito geral na sociedade europeia, mas podiam sem dificuldade ascender a postos e cargos de relevo, assim revelassem valor e preparação para tal. E muitos o fizeram. De resto, o preconceito foi-se atenuando ao longo dos tempos – e a própria elite portuguesa de origem europeia foi acarinhando a ascensão social, política e económica de africanos que se instruíam e distinguiam pelo seu valor. 

O exemplo que imediatamente vem à ideia é o de Honório Pereira Barreto, que na sua família era o quinto de uma longa linha geracional de funcionários ultramarinos que vinha desde o século XVIII. Nascido em Bissau, na Guiné Portuguesa, em 1813, filho de um negro cabo-verdiano que era então sargento-mor da Fortaleza de Cacheu e de uma negra de Ziguinchor, Honório Barreto fez os seus estudos na Metrópole e regressou à Guiné para desempenhar os mais altos cargos na administração daquela Província. Em 1837 ascendeu ao governo geral da Guiné, cargo que ocupava aquando da sua morte, em 1859. 

Mas se, como vimos, Beatriz Dias, Romualda Fernandes e Joacine Katar Moreira (eleitas, respectivamente, pelo Bloco de Esquerda, pelo PS e pelo ‘Livre’ nas últimas legislativas) estão longe de ser as primeiras pessoas negras a assumirem o cargo de deputado em S. Bento, tampouco são as primeiras mulheres africanas eleitas.

Como avançou nestas páginas, na última edição, o nosso colaborador Nuno Alves Caetano, a primeira mulher africana eleita para o Parlamento português foi a luandense Sinclética Soares dos Santos Torres, que exerceu o cargo de deputada à Assembleia Nacional, em representação da Província e Estado de Angola, entre 1965 e 1974.

Nascida em Junho de 1924, em Luanda, aí fez os primeiros estudos. Licenciou-se depois em Farmácia pela Universidade do Porto e regressou à Província natal, onde teve uma brilhante carreira de dirigente na sua área de especialidade antes de aceitar o lugar de vogal do Conselho Legislativo da Província de Angola (1962). Contaminada pelo ‘bichinho’ da política e empenhada em melhorar as condições de vida dos seus co-provincianos, aceitou candidatar-se a deputada pela União Nacional, em 1965, trabalhando na Assembleia Nacional até ao golpe de 1974.

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