Quando a ministra da Saúde falta, as vítimas somos nós

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A empatia é um fenómeno engraçado, de difícil explicação e que, de alguma forma, acaba por tolher o nosso bom juízo. Esta espécie de inteligência emocional abrange três perspectivas diferentes (a afectiva, a cognitiva e a da regulação de emoções) e, basicamente, subsume-se a um referencial único: o exercício cognitivo e emocional de procurar interacção com o estado emocional de outra pessoa, ou, em português corrente, “colocar-se nos sapatos de outrem perante uma determinada situação”. É uma espécie de experimentação de emoções pela observação de situações, comportamentos e estados de espírito alheios. A resposta fisiológica que damos nesses casos é altruísta, denotando uma preocupação excessiva e a tentativa de resolver o problema, ajudar a pessoa, ou, na impossibilidade, (em)prestarmos a nossa solidariedade e carinho.

Não é pacífico para a ciência a razão pela qual se cria o vínculo empático. Para Mac Lean resulta do sistema límbico e das suas conexões com o córtex pré-frontal, através de circuitos neurais, activados pela visão (de onde advém o contágio emocional) e do olfacto (activação da insula), fenómenos mais tarde verificados com recurso a ressonâncias magnéticas e de estimulação de dor em pessoas próximas. Existem estudos que mostram o choro reflexo do recém-nascido como um percursor inato de activação empática, em resposta ao choro de outro bebé, sendo, posteriormente, à medida que crescemos, substituída por respostas empáticas mais maduras.

O grau de empatia varia com a (matur)idade (experienciação e frequência de exposição a situações semelhantes), mas também com factores situacionais (ligação à vítima; associação a pertença grupal) e com o julgamento da situação propriamente dita (concorrência da vítima para a ocorrência dessa situação; “medida” e adequação do “castigo”; intensidade da dor). Obviamente, a empatia é tão mais forte/intensa quanto mais presente for o estímulo externo. Um texto ou uma fotografia dificilmente produzirão o mesmo grau de empatia que o relato do próprio, um vídeo com som ou, sobretudo, a vivência in loco da situação causadora de dor. A resposta neural é tão mais intensa, quanto maior for o número de sentidos envolvidos que enviam informação ao cérebro.

A tudo isto a ciência responde. Ao que não responde ou dificilmente consegue explicar é o porquê de determinada irracionalidade empática. O que nos leva a criar empatia por uma pessoa que não nos é próxima e cujo aparente sofrimento (que desconhecemos, inclusive, se é real) é inerente às funções que ocupa e pelo qual, no limite, pode ser o grande responsável? Pior: e, ainda que tal sofrimento exista, porquê transferir essa empatia, quando as vítimas das suas acções somos nós? Passando à prática:

No seguimento das primeiras variantes da SARS-COV2, fomos bombardeados com imagens, directos, declarações, conferências de imprensa, entrevistas e tudo o que mexesse em termos comunicacionais, pela Ministra da Saúde e pela inefável Directora-Geral da Saúde, num diz que não disse e em garantias inabaláveis, desmentidas pela realidade em menos de 24 horas. Dos ventiladores chineses aos EPIs nacionais, das máscaras cirúrgicas XPTO com 3 filtros protectores às de confecção doméstica com tecido de baixa gramagem e muita bonecada à mistura, do confinamento obrigatório aos comícios partidários, do café ao postigo à festa do Avante, a tudo tivemos direito. Até a conselhos de compotas, imagine-se… Uma Temido condoída, cabisbaixa e de lágrima ao canto, mostrava-se nas TVs incapaz de gerir a situação. Confessou-se incapaz, impotente. Grande parte de nós empatizou com a figura: “Coitada! Não deve ser nada fácil!”.

A mesma Marta que, já mais tranquila e a banhos com o marido, fez capas de revista como se se tratasse de uma estrela de Hollywood à dimensão deste Portugal dos pequeninos… O abalo foi curto, portanto, tão curto que lhe permitiu sorrisos e acenos ao brandir o cartão de militante no comício do PS! Entretanto, a Marta deixou de aparecer. Não teve que explicar as lamentáveis afirmações relativamente à especialidade de Medicina Geral e Familiar, quando sugeriu que esta devia ser uma especialidade menor. Não teve a Marta que responder pelos atrasos nas consultas, nos meios complementares de diagnóstico, nas cirurgias… Não teve a Marta que justificar que uma das maiores bandeiras do Partido Socialista – a de médico de família para todos os portugueses – não foi cumprida e que o rácio é hoje inferior ao de 2015. Não deu a Marta a cara pelos escândalos na vacinação, pela falta de meios, pela falta de pessoal, pela falta de verbas, pela falta de capacidade e organização na saúde. Mas o PS foi a votos e a Marta continuou ministra.

Já em 2022, continuando a Marta desaparecida, já que o foco noticioso passou a ser internacional e se desviou uns milhares de quilómetros para leste, ficámos a saber que o número de mortos e infectados por Covid não para de crescer. Cresce, como cresce a dívida do Ministério da Saúde e os atrasos nos pagamentos. Que há médicos com férias por gozar, com trabalho extraordinário por receber e com um sem número de crédito de horas. Soubemos, também, que os médicos ucranianos, mesmo não falando uma palavra de português, beneficiaram de regime excepcional e altamente discriminatório, face aos médicos de outros países. E confirmámos que existe uma falta generalizada de médicos no país. Para nosso espanto, vimos ser considerada uma proposta de avaliação dos médicos de família que os poderia penalizar caso os seus pacientes viessem a interromper voluntariamente a gravidez. Que é basicamente o equivalente a penalizar os oftalmologistas pelo glaucoma, um pneumologista pelo cancro no pulmão ou um gastroenterologista pelas hemorroidas. É só estúpido, mas é a política socialista: com uma mão acena à liberdade individual em matéria de aborto, com a outra pune os profissionais médicos incapazes de o evitar… Também esta semana fomos informados de que, no ano passado, as viaturas VMER estiveram inoperacionais mais de 7.000 horas, 5.400 das quais por falta de tripulação (tendo-se registado diversas mortes pelo atraso ou inadequação de cuidados) e que a carreira de especialista em emergência médica (medicina de urgência e emergência) continua por aprovar, desde 2018.

Nestas alturas, Temido sofre do síndrome de Wally. No mínimo, é difícil de encontrar. Contudo, numa sondagem recente sobre os índices de aprovação dos vários ministros, a Marta teve a nota mais alta. Não sei se a empatia explica isto, ou se é simplesmente burrice! É que se a Marta, enquanto pessoa, pode merecer toda a nossa empatia, à Marta ministra, apenas se lhe pede competência. E quando ela falta – como tantas vezes faltou – as vítimas somos nós.

Na incapacidade de pedir empatia aos políticos para com os portugueses, seria bem exigir respeito! E já agora, que nos déssemos a ele! ■