UM ARTIGO DE PEDRO SOARES MARTÍNEZ

Os fluxos turísticos crescem e decrescem ao sabor de múltiplos factores instáveis, para os quais concorrem os rendimentos globais e respectiva repartição, a tranquilidade política nos países de origem, o custo de vida e a paz civil nas regiões de destino, a oscilação de gostos, de modas e de ofertas. Tanto bastará para concluir que o turismo constitui o sector produtivo mais sensível a situações de beligerância, de extrema instabilidade política ou de acentuada depressão económica. Quando passar a febre turística, quem vai pagar os hotéis novos – serão os hoteleiros, os que confiaram na sua viabilidade e na sua honorabilidade, emprestando-lhes capitais, ou os contribuintes, para salvaguarda de males julgados maiores?

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Cinquenta anos atrás, já os sábios da reestruturação económica europeia, mesmo os da O.C.D.E., geralmente mais discretos e moderados, tinham chegado à conclusão de que Portugal só teria lugar de relevo nos respectivos quadros pela florestação e pelo turismo à beira-mar. Sem dúvida que, reduzida a população portuguesa aos ofícios de lenhadores e de criados de esplanadas, grande parte dela teria de expatriar-se.

Mas também aí os ditos sábios não lobrigavam dificuldades de maior, pois a França e a Alemanha receberiam gostosamente a mão-de-obra excedentária de Portugal. Tudo estava bem, perfeito, nos planos daquela Europa integrada, ateia, jacobina, liberta de vinculações mitológicas, os quais, embora sem o confessarem, ou sem o perceberem sequer, só dispunham ainda da base, de alguma solidez, que ficara da “Respublica Christiana”, desfeita pelo Reformismo.

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Passaram cinquenta anos, período curto, em relação à eternidade, ou mesmo em relação à continuidade portuguesa, mas imenso para quantos, de vistas curtas, renegando o passado e desconhecendo o futuro, só conseguem toscas previsões a curto prazo, que não servem para cuidar minimamente do que possa razoavelmente estar ao alcance do povo português.

Mas muitas das premissas carreadas pelos tais sábios, cinquenta anos atrás, já se sumiram. A Alemanha e a França não carecem dos excedentes da mão-de-obra portuguesa; e a nossa floresta, criminosamente ardida, terá levado ao abandono da promissora florestação. Ficou o turismo. E houve quem se lhe agarrasse com muitas ganas. Não sei se com boa-fé e ponderação que transcendam o curto prazo.

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Quando as digressões turísticas começaram a ter algum desenvolvimento regular, na Europa, a partir das aberturas de linhas férreas, não se situaria Portugal na linha prioritária das curiosidades dos visitantes estrangeiros, o que poderá atribuir-se a diversas circunstâncias, entre as quais a extrema instabilidade política. Os frequentes golpes de Estado da Monarquia dita liberal e as constantes revoluções da 1ª República eram muitas vezes referidos, em tom chocarreiro, nos palcos de grandes cidades, mas não contribuiriam para alimentar curiosidades de maior relativamente ao nosso País.

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E quando alguma estabilidade interna e as festividades de 1940, comemorativas do duplo centenário da Fundação e da Restauração, poderiam atrair turistas estrangeiros a Portugal, a guerra que atingira toda a Europa, directa ou indirectamente, com as naturais e habituais consequências, vedava expansão ao turismo, embora sem travar o afluxo de muitos milhares de refugiados que em Portugal procuraram então asilo seguro e cuja bem notada presença, nas ruas de Lisboa e de outras localidades, já lembraria a alguns que o País não se achava preparado para, depois da guerra, receber o número elevado de turistas que poderiam então estar interessados em vir a Portugal, se os soubéssemos atrair.

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A paz veio. O turismo ainda tardou. E a nossa preparação para recebê-lo também. Chegou-se mesmo à conclusão de que, no meio da tumultuosa tarefa de reorganização mundial, após a guerra, a hotelaria portuguesa não estava apetrechada para receber os numerosíssimos delegados das muitas comissões internacionais cujas sessões eram programadas para Lisboa, ou as luzidas comitivas de chefes de Estado e outros exigentes notáveis. De uma vez, procedeu-se à requisição, em Lisboa, de um pequeno hotel de muito luxo para alojar uma grandiosa comitiva estrangeira.

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Dessas dificuldades reconhecidas resultou a ideia de que Lisboa precisava de um grande hotel de luxo, para instalação de estadistas e sub-estadistas estrangeiros, de empresários de grosso trato e também de turistas enriquecidos, que viessem a Lisboa. Mas não parecia que os capitalistas se mostrassem interessados no empreendimento, que seria muito caro e de sucesso duvidoso quanto a uma regular ocupação hoteleira que garantisse as indispensáveis amortizações de capitais investidos.

Acabou por fazer-se apelo ao patriotismo de seis muito conhecidos e prósperos industriais portugueses, que, com alguma relutância embora, lembrando-se de frutuosos negócios passados e, possivelmente, na esperança de outros futuros, acederam a associar-se na empresa que construiu o Hotel Ritz, cujos resultados financeiros, aliás, conforme fora previsto, não terão sido minimamente satisfatórios, nos primeiros anos de funcionamento daquela unidade hoteleira.

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Entretanto, o turismo passou a ter algum relevo no planeamento económico português, embora, na Câmara Corporativa, cujos pareceres costumavam primar pela reflexão, houvesse quem manifestasse receio por esse relevo, na medida em que pudesse prejudicar os investimentos noutros sectores produtivos, admissivelmente mais seguros, mais estáveis, ou até mais rentáveis.

Era impressionante, naquela época, o sucesso alcançado pelo surto turístico da Espanha e o estímulo que suscitava em Portugal. Mas as situações não eram comparáveis, pois, ao tempo, o custo de vida português, embora baixo para as médias e normais europeias, era muito mais elevado do que o de Espanha. Além de que os turistas que acorriam a Espanha, em grande parte, provinham dos departamentos franceses fronteiriços. Para as famílias que daí provinham, próximas das raias, as férias em Espanha eram fontes de economias. Não obstante, o turismo português, com alguma lentidão embora, foi mudando a face do litoral algarvio.

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Mas tudo mudou, quase repentinamente. Portugal e os portugueses, libertos de pesos e limitações de um passado de miséria e sacrifícios extremos, estavam destinados a aguardar, jubilosamente, um futuro promissor. Havia quem dissesse mesmo que a nova e brilhante prosperidade, talvez inspirada nos sábios e já habituais mentores de turno, assentaria na transformação de Lisboa numa grande metrópole de lazeres, diversões e prazeres, uma espécie de Macau do Ocidente, vocacionada para todas as formas de jogos, de prostituição e de consumo de drogas, ao sabor de cada um e ao alcance da sua bolsa.

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E, nem se sabe se terá sido em prelúdio dessa Babel, dançando luxuriosamente, ao som de todos os ritmos e idiomas, em torno do “bezerro de ouro”, que o turismo renascente, de repente, quase simultaneamente, ergueu em cada rua, em cada quarteirão, em cada beco, de Lisboa e do Porto, um hotel novo. Ou mais ainda. E sem dúvida que as edificações, mais ou menos pomposas, em espaços vazios, ou em substituição de prédios degradados, sempre valorizam as cidades e as nações. Pelo que teremos todos motivos para nos rejubilarmos em razão de tais vantagens urbanísticas.

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Mas o caso justificará alguma reflexão quanto às probabilidades objectivas de continuidade dos fluxos turísticos e de outras circunstâncias que também possam vir a contribuir para a sustentação das novas unidades hoteleiras, as quais, quando relativamente modestas, ainda terão de concorrer com a crescente improvisação de casas particulares cujas portas se abrem aos turistas. Sem dúvida que um País com as condições naturais das portuguesas, acrescidas da índole das suas gentes e de tudo quanto essa índole, através dos tempos, acrescentou à natureza, pode, e talvez deva, incluir o turismo entre as suas fontes de rendimentos; mas sem esquecer que se trata de uma fonte de rendimento em extremo falível.

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Com efeito, os fluxos turísticos crescem e decrescem ao sabor de múltiplos factores instáveis. E para tais factores concorrem, entre outras condições, as médias de rendimentos globais e de respectiva repartição sectorial, nos países de origem dos emigrantes; a tranquilidade política desses países; o custo de vida nas regiões de destino e a previsão que se tenha estabelecido pelo que respeite à paz civil nessas mesmas regiões. Também a oscilação de gostos, de modas e de ofertas de centros turísticos concorrentes muito pesarão na prosperidade, e até na viabilidade, de cada centro turístico. Tanto bastará para concluir, prontamente, no sentido de que o turismo constitui o sector produtivo mais sensível a situações de beligerância, de extrema instabilidade política ou de acentuada depressão económica.

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Mas se, numa economia livre de mercado, houver investidores e empresários que, confiando no turismo e nos seus estabelecimentos hoteleiros, neles arrisquem o seu próprio dinheiro, talvez não haja motivos de alarme excessivo. Mas se os empreendimentos hoteleiros, e outros inerentes às infra-estruturas turísticas, dependerem do recurso ao crédito anónimo e à movimentação de pequenos aforros múltiplos, cujos titulares desconhecem a natureza das aplicações dos seus modestos capitais, a questão já respeitará a todos, à comunidade nacional e ao sector público. Tanto mais que exemplos recentes, bem dolorosos e muito desprestigiantes, mais contribuirão para se justificar que se procure saber, quando passar a febre turística, quem vai pagar os hotéis novos. Serão os hoteleiros, os que confiaram na sua viabilidade e na sua honorabilidade, emprestando-lhes capitais, ou os contribuintes, para salvaguarda de males julgados maiores?

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