Rússia já transformou o “comunismo” num produto turístico

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Dizia Coluche, um cómico francês que nunca foi um intelectual, que a razão pela qual o capitalismo vingara e o comunismo não era o facto de o comunismo ter sido inventado pelo homem e o capitalismo não.

Este nasceu, cresceu e desenvolveu-se naturalmente, com todos os defeitos e falhas que lhe conhecemos, enquanto o comunismo foi desenvolvido em “laboratório”, por um homem infelizmente brilhante, que foi sucessivamente escorraçado da Alemanha, da França e depois da Bélgica, tendo finalmente aterrado com a sua numerosa família numa Inglaterra, em plena época vitoriana, no auge do “Britannia Rules”, onde finalmente publicou o seu famoso “Das Kapital”. Quando entregou o manuscrito para ser impresso terá desabafado: “Nunca um homem tão pobre escreveu tanto sobre dinheiro”. Os direitos de autor não melhoraram muito a sua situação económica. 

Foi uma herança de uma distante tia alemã que lhe permitiu morrer confortavelmente rodeado pela família, no dia 14 de Março de 1883, aos 65 anos de idade, ao fim de uma vida bastante atribulada. 

O seu grito de batalha “Proletários de todo o mundo uni-vos” foi testado pouco depois, com o deflagrar da I Guerra Mundial. Mas os proletários da Alemanha não se uniram aos seus colegas ingleses, nem os proletários russos se uniram aos seus camaradas austro-húngaros.

Aí caiu a primeira perna de uma mesa, que nunca deu de comer a ninguém. Todos estes dramas começaram na Rússia. 

Como todos sabemos a recta final do Czar Nicolau II foi uma tragédia, como todo o ano de 1914 foi uma sucessão de tragédias.

Primeiro com o atentado em Sarajevo, no qual o pretendente ao trono da velha monarquia austro-húngara foi assassinado junto com a sua mulher, Sophie. 

Perante a velhice cansada e distante do imperador Francisco José, já com 80 e muitos anos, quem tomou a decisão de dar uma lição à Sérvia, instigadora do atentado, foi o seu Estado-Maior. Para tal enviaram um ultimato, cujas cláusulas foram todas aceites excepto a que exigia que fosse dada autorização às autoridades austríacas para investigar esse crime em território sérvio. Com a recusa Sérvia, veio a declaração de guerra, seguindo-se depois o jogo de dominós.

O império austro-húngaro arrastou o alemão, este arrastou o otomano, a França arrastou a Rússia, tendo a Inglaterra sido também arrastada por um recente acordo com a França, a Itália começou de um lado e acabou noutro, e os Estados Unidos, perante a incompreensível declaração de guerra do Kaiser alemão, também foi arrastada, já na recta final. A mesma asneira que Hitler voltaria a fazer alguns anos mais tarde…

Para todos estes velhos impérios, a guerra foi uma espécie de fuga para a frente e todos eles morreram no fim da guerra, excepção feita ao russo, cujo território se manteve para além da guerra, tendo apenas mudado de nome de czarista para soviético.

Voltando à Rússia e recuando até 1613, data do início da dinastia Romanov, verificamos que esta família tem uma árvore genológica aos ziguezagues. Ao pai sucede o irmão, ao irmão sucede a cunhada, à cunhada sucede a sogra, à sogra sucede o tio, e assim por diante. São guerras intestinas intermináveis que se transformam em golpes de estado. Os últimos czares foram as últimas vítimas desta longa tragédia. 

O avô de Nicolau, Alexandre II, o reformador que aboliu de vez a servidão na Rússia, morreu assassinado a 1 de Março de 1881. Há quem diga que foi a maior tragédia russa do século XIX. 

Quem o assassinou foram jovens anarquistas e socialistas a quem essas reformas não interessavam. O que eles queriam mesmo era acabar com a dinastia. O seu filho Alexandre III já não conseguiu evitar a queda e o neto, Nicolau II, com o avião prestes a despenhar-se, muito menos. A declaração de guerra aos alemães e austríacos foi uma verdadeira morte anunciada, com sabor a fuga, já a poucos metros do abismo. 

Como sabemos, houve nesta primeira guerra mundial duas frentes. A ocidental e a oriental. Nesta última bateram-se austro-húngaros contra os russos. Nesta frente, em que combateu também o pai do Papa João Paulo II do lado austríaco, as coisas correram muito mal para o exército russo. A fome e a exaustão do desgraçado povo russo levaram o czar Nicolau II a abdicar em Março de 1917. Pouco antes já os alemães se haviam encarregado de enviar-lhe um presente envenenado, promovendo o regresso de Lenine do seu exílio dourado, na Suíça, para a capital, São Petersburgo. 

Logo após a abdicação de Nicolau II, vem um curto governo de transição liderado por Kerensky, que não consegue controlar a situação, abrindo assim as portas de par a par para a entrada em cena do bolchevique, o que acontece a 17 de Outubro de 1917.

Lenine propõe imediatamente a rendição incondicional da Rússia, o que leva ao cessar-fogo entre a Rússia e a Áustria e à assinatura do tratado de Brest Litovsk, a 3 de Março de 1918, com Trotsky a assinar pelo lado bolchevique e o irmão do meu avô a assinar pelo lado do império austro-húngaro. 

E assim, nesta Rússia já de joelhos, os bolcheviques não tiveram dificuldade em vender o sonho comunista, não sem antes imporem uma longa guerra civil que acabou com a vitória do exército vermelho.

Foi logo no princípio desta guerra que toda a família do pobre Nicolau II foi assassinada algures na Sibéria. Com o fim do comunismo, em 1991, os seus corpos foram exumados e trazidos para San Petersburgo e toda a família foi canonizada pela Igreja Ortodoxa. Os seus restos mortais repousam na Fortaleza de Pedro e Paulo, em S. Petersburgo.

Lenine morre pouco depois, em 1924, e contra a sua vontade e apesar dos seus avisos, quem toma o poder é Stalin, de origem georgiana, um jovem arruaceiro, filho de um sapateiro e uma modista, preso múltiplas vezes, e que rapidamente ascende ao topo da hierarquia, deixando também ele um rasto de sangue atrás de si. Stalin foi um Pombal, à escala russa.

Stalin é um dos grandes vencedores da II Guerra Mundial, que tal como dizia Churchill foi ganha com dólares americanos e sangue russo. No período do pós-guerra, a Rússia dá um salto de gigante e chega ao espaço antes dos seus grandes rivais. É um período de grande expansão e crescimento económico. Mas o mundo ocidental, com o seu mecanismo de mercado, cresceu muito mais, e mais depressa, deixando a Rússia irremediavelmente para trás. Com a morte de Stalin, em 1953, vem o bonacheirão Krustchev, que em resposta à colocação de mísseis americanos na Turquia, resolve enviar mísseis para Cuba. Nunca chegaram a ser descarregados, como todos sabemos.

A Rússia já estava numa lenta descida. Com o esmagamento das revoltas, primeiro em Budapeste e depois em Praga, o regime começa a mostrar fissuras. Quando um regime se mantém apenas pela força, já está na via descendente. Era o exército vermelho que ia segurando as pontas. 

Tudo isto para dizer o quê? O sistema comunista, simplesmente não funciona, porque é antinatura. Nós somos todos diferentes e quando o estado nos quer fazer iguais condena-nos a todos à miséria.

Há sempre uns mais diligentes que outros, uns mais empenhados que outros, uns com mais ou menos talentos, que os usam melhor ou pior e, por isso, pode-se acabar com os pobres mas não se pode acabar com a pobreza. 

Ninguém consegue erradicar a preguiça, a inveja, o ciúme, o esforço ou o empenho, a inteligência ou falta dela, porque tudo isso faz parte da nossa natureza humana.

Aqui chegados eu pergunto-me como é que ainda existem países, onde ainda existem pessoas que ainda acreditam e votam em partidos que acreditam nessa utopia? 

A própria Rússia já transformou o “comunismo” num produto turístico. Hoje existem empresas em Moscovo que fazem jantares temáticos para turistas americanos, por exemplo na ex-sede do KGB. Os clientes saem de lá para os hotéis a rir e bem-dispostos. 

Salazar dizia que o comunismo só funciona nos conventos ou nas sociedades muito primitivas. Já alguém se lembrou de enviar as manas Mortáguas para a Amazónia e a Catarina Martins, junto com a Joacine, para um convento com Frei Jerónimo à porta? ■