Se o ridículo matasse, Portugal seria um imenso cemitério!…

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Do alto dos meus quase 78 anos acho-me no direito e no dever de fazer comparações. Analisando retrospectivamente as vivências acumuladas, creio indubitável que, dos muitos progressos alcançados, na esfera social, mormente nas relações de sociabilidade, o que se entende por educação formal sofreu um dramático retrocesso.

Ao tempo da “antiga Senhora” – o Estado Novo – agora tão vilipendiado pela ignorância vigente, o trato entre as pessoas situava-se a um nível de correcção e respeito, que nada têm a ver com a realidade actual.  

A delicadeza e, tantas vezes, a amabilidade faziam parte do quotidiano citadino e, sobretudo, no convívio provinciano e rural. Mesmo os mais humildes pautavam-se por uma relação de respeito, que certos ‘intelectualóides’ de esquerda classificavam de submissão ou subserviência. O resultado foi que, no rescaldo do 25-A, instigados pelas “amplas liberdades em curso”, alguns destemperados profissionais revelassem os seus instintos mais primários. Assim, certos empregados de cafés e restaurantes passaram a tratar os clientes com modos grosseiros, para não falar de um cobrador de autocarro da Carris de Lisboa que, impante, e em dia de calor, exercia o seu mister de tronco nu, desvelando uma pelagem verdadeiramente pitecantropóide….

Dizia eu que, nesse tempo de “obscurantismo”, como agora sói dizer-se, havia princípios de boas-maneiras, praticados habitualmente pela maioria das pessoas. Às vezes, até, o tratamento se revestia de fórmulas altamente engenhosas. Tal acontecia quando não se sabia como nos dirigirmos a alguém, por desconhecermos o seu estatuto social. Contornava-se então a dificuldade não referindo o nome que ficava sempre subentendido. Era um jogo de palavras de que nem todos estariam à altura do desafio.

À gentileza cabia igualmente uma parte importante no relacionamento. Mais empregue pelos melhor educados, mas que alguns que não o seriam imitavam. Frequentemente nos transportes públicos viam-se pessoas mais jovens a levantarem-se para cederem os seus lugares a senhoras ou idosos. Outro uso que, felizmente, ainda prevalece na generalidade, constituía dar passagem às senhoras em várias circunstâncias, sobretudo em entradas e saídas por portas.

Neste capítulo ocorre-me um episódio que traduz uma realidade daquela época em Portugal. Menino e moço de 17 anos fui, nas férias de Verão, para um campo de trabalho de estudantes em França. Depois de passar a noite numa enxovia espanhola em Irun, manhã bem cedo apanhei o comboio francês em Andaya, rumo a Pau. A carruagem era dividida em compartimentos de seis passageiros. Ainda quase vazia, sentei-me à janela de um deles. Pouco tempo depois chegava uma Senhora de meia-idade e com muito bom aspecto, trazendo consigo uma mala. Ao ver que se aprontava para a colocar na rede superior ao assento, levantei-me de imediato a fim de tomar para mim a tarefa. Agradecendo muito, a dita Senhora sentou-se à minha frente e num francês parisiense perguntou: “É Português?”. Respondi que sim, para logo indagar como é que sabia a minha nacionalidade. “Foi fácil; conheço Portugal, onde muitas vezes assisti a gestos de cavalheirismo como o seu, sendo muito raro isso acontecer noutros países”. Ufano fiquei e orgulhoso do que considerava uma natural atitude de boa educação.

Mas vejamos agora o quadro actual com que nos brinda a decantada “democracia” em que vivemos. Longe vão os tempos em que as pessoas eram tratadas pelos apelidos. É certo que os nomes próprios se utilizavam, normalmente aplicados às profissões sem colarinho branco: Sr. Manuel electricista, Sr. António canalizador (ainda os havia) ou Sr. Joaquim da carvoaria. Para os demais, porém, prevalecia o apelido identificador como, aliás, prescrevia a legislação, creio que até hoje em vigor. Deste modo, o sujeito de direitos, como dizem os juristas, identificava-se pelo nome de família: Sr. Assis, Sr. Silva, Sr. Gomes etc.

Hoje as coisas mudaram totalmente. Sem que seja afecto às teorias da conspiração, parece realmente que se instalou um movimento ‘basista’ impondo o princípio de que somos todos iguais e, portanto, o nome de baptismo passa a ser o utilizado.

Pergunto-me se, numa interpretação livre, o fenómeno não poderá ser atribuído às teses de António Gramsci, o hoje famoso filósofo e sociólogo marxista, mentor da revolução cultural e por cujo meio se atingiam as metas pretendidas. 

De facto, o fenómeno a que se assiste é claramente revolucionário na forma de tratamento. Sem cuidar de uma identificação correcta pelo sobrenome, passamos todos a ser o Sr. Fernando ou o Sr. Artur ou qualquer outro primeiro nome. 

Quando me apercebi da mudança operada, desde logo e até hoje reagi. Sei que é uma guerra perdida, mas não me deixarei dominar pelo hábito, que chegou para ficar. Saboreio o momento em que sou chamado, por exemplo, para qualquer consulta hospitalar: ouvindo o meu prenome, normalmente em voz estridente, simplesmente fico em silêncio, até que a funcionária/trabalhadora, com certo desagrado, apregoa o apelido. Aí, sim! Respondo e explico por que não respondi; nem sempre percebem, mas na maioria das vezes encaixam sem comentar. Quiçá lhes dê para reflectir…

Mas muito pior do que isto verifica-se na queda total e absoluta do uso da palavra “Senhor” ou “Senhora” no trato habitual entre os nossos concidadãos. Muitos se lembrarão de que, há uns anos, a utilização deste vocábulo, no masculino e feminino, era praticamente único e corrente. Se, por excepção anómala, alguém empregava o termo “Você”, tal era considerado expressão de “estrebaria”… 

A todos os níveis a utilização do “Você” volveu-se soberana. Pasmo como até entre gente com certo estatuto – bancários, funcionários públicos, enfermeiros, e muitos mais – a prática passou a ser generalizada e quase sem excepção!…

Confesso que não consigo habituar-me a ouvir o ‘Você’ quando em diálogo com um qualquer vendedor, empregado de balcão ou em conversa com um agente imobiliário o termo é abundantemente usado.

Algo semelhante se regista quando se é atendido em loja ou em qualquer departamento, oficial ou particular. Outrora a expressões empregues eram: “faz favor de dizer”, “em que posso servi-la”. Actualmente tudo se reduz a um “diga”, atirado com aspereza, quando não com displicência.

Outra circunstância curiosa do “basismo” corrente reside na omissão, creio que intencional, da qualificação académica ou profissional do cidadão ou cidadã (para agradar à igualdade de género). A indicação de “Dr.” caiu sem remissão. É certo que na sociedade anglo-saxónica por “Drs.” apenas são denominados os médicos. Em países da América Latina a questão foi contornada pelo emprego da designação de “Licenciado”, de que o México é o melhor exemplo. 

Em contrapartida, deu-se o fenómeno de reclassificar profissões menos qualificadas, tais como ‘contínuas’, que passaram a ‘auxiliares de educação’, ‘empregada de limpeza’ agora ‘auxiliar de serviço’, ‘carregador’ hoje ‘técnico operacional’, ‘caixeira’ transformada em ‘operadora de loja’, ‘caixa de supermercado’ designada ‘operadora de caixa’, ‘secretária´ passou a ‘técnica administrativa empresarial’, empregado em “call center”  transformou-se em ‘operador de marketing telefónico’ e, cereja no topo do bolo, o ‘coveiro’ é agora ‘técnico de profundidade’!…

Se o ridículo matasse, Portugal seria um imenso cemitério!… 

Pelo exposto poderá pensar-se que se trata de um mero saudosismo por um passado longínquo. Nada disso. O que me moveu a referir o tema foi apenas o desgosto de assistir à degradação incontida das chamadas ‘boas-maneiras’, em prol de uma pseudo-igualdade que apenas degrada o relacionamento. ■