Quem não trabuca não manduca

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Havia uma anedota que corria em Angola nos anos 50, que contava mais ou menos isto. 

Estavam uma série de estivadores sentados à sombrinha, encostados a uma parede no porto de Luanda. Passa o patrão e manda trabalhar. “Patrão, saco vazio não si levanta”, querendo com isto dizer que estavam com fome.

Depois de lhes dar o almoço, o patrão passou pelo mesmo local e viu-os outra vez sentados no mesmo local. Estupefacto, pergunta o que se passa, ao que eles respondem: “Patrão, saco cheio, não dobra”.

Às vezes ponho-me a pensar que nós, em Portugal, estamos com uma situação semelhante, no que toca ao mercado de trabalho. 

Os patrões pagam pouco porque a mão-de-obra é fraca (desmotivada e desqualificada) e os empregados trabalham pouco porque são mal pagos. Uma verdadeira pescadinha de rabo na boca.

Mas quem tem a responsabilidade de desfazer este nó, os patrões ou os trabalhadores, ou será que estão ambos à espera que a Senhora de Fátima faça mais um milagre?

Eu tenho amigos, que são patrões de grandes grupos económicos, que me garantem que não podem aumentar nem um centavo aos miseráveis ordenados, caso contrário põem em risco a rentabilidade do seu negócio. 

Mas acrescentam que o problema de Portugal é, acima de tudo, a falta de produtividade.

E eu pergunto porque há falta de produtividade? A resposta parece simples. A grande maioria dos trabalhadores portugueses vivem frustrados e abatidos, o que facilmente se comprova pela elevada taxa de divórcio aliado ao elevadíssimo consumo de antidepressivos. Das mais altas taxas da Europa. Temos muito sol e bacalhau na brasa, mas não temos dinheiro nem para chupar as espinhas do bacalhau. Somos um povo miserável, que vive miseravelmente e que se consola há 500 anos com a descoberta do caminho marítimo para a India. É pouco, não chega. 

E à noite, quando nos sentamos para descansar, temos os Salgados, Sócrates, Berardos e Rendeiros da vida, que diariamente nos entram pela casa adentro, com mirabolantes histórias de milhões para aqui e para ali. E como sobremesa temos um sistema judicial que não vê passar o elefante, mas repara na pulga por trás da orelha, como se viu há dias, quando o mandado de captura em nome de Rendeiro veio para trás, porque faltava o “de” no apelido.

O que passa pela cabeça do trabalhador quando vê tudo isto? Num país destes, com gente desta a mandar, sou eu que vou dar o exemplo? Com os meus 700 ou 800 euros por mês?

Sou eu que vou chegar 10 minutos mais cedo, fazer os meus 30 minutos de almoço, nem mais um, não vou ao café, não comento a derrota do Benfica, e vou estar oito horas concentrado a cozer estas sapatilhas de exportação. Porque assim, eu vou ajudar Portugal a sair da cauda da Europa. Vocês, os grandes empresários, acham que é assim que o mundo funciona?

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