Será isto uma “escultura”?

Obra de "arte" adquirida por 300 mil euros em ajuste direto acaba "vandalizada".

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A imagem não oferece dúvidas: trata-se de cinco conjuntos de vigas de ferro pintadas de branco . Por esta “escultura”, a que alguns também chamam “instalação”, cobrou o “escultor” lisboeta Pedro Cabrita Reis a módica quantia de 250 mil euros, mais IVA: um total de 307,5 mil euros saídos directamente, sem concurso público, dos cofres da Câmara Municipal de Matosinhos. A falar com rigor, não foi o “escultor” Cabrita Reis a cobrar: foi o empresário Cabrita Reis, pois a “obra” foi encomendada, por ajuste directo, à firma “Armazém 10, Limitada”, de que Reis, a mulher e o filho detêm 95,7%.

Ao olhar para a “escultura” e para a factura ao mesmo tempo, a primeira pergunta que vem à ideia é: serão estas vigas feitas em liga de prata ou ouro? Mas não: a “obra” que o “escultor” intitulou “A Linha do Mar” é feita na mais proletária das ligas metálicas. Inaugurada em 15 de Dezembro junto ao Farol da Boa Nova, em Leça da Palmeira, faz parte daquilo a que a autarca socialista Luísa Salgueiro define como “o roteiro de arte pública municipal”. O completo despropósito da “obra” é inocentemente confessado pelo próprio “escultor”, para quem a “função” da sua “instalação” é ser “um lugar de encontro de pessoas”, servindo alguém que “vá passear um carrinho de bebé” ou queira “passar e sentar-se para ler o jornal”. Um banco de jardim cumpriria a mesma função e sairia mais em conta, dizemos nós.

Tudo teria passado sem novidade, muito à portuguesa, com a edilidade matosinhense a privar os cofres públicos de 300 mil euros em favor de um “artista da moda” e com o povo anónimo a sussurrar entre dentes contra o despautério, se não se desse o caso de, na última semana, anónimos terem pintado algumas palavras na insólita “instalação”. Logo a imprensa do sistema rasgou as vestes na praça pública, clamando chorosa contra “o acto de vandalismo”, e o município socialista apressou-se a apresentar queixa nas autoridades.

As pichagens, semelhantes àquelas que impunemente têm sido feitas sobre monumentos nacionais sem que a intelectualidade lusa pareça preocupar-se por um segundo sequer, reflectiam apenas o que o povo miúdo já vinha dizendo pelos cafés, em desabafos espontâneos. “Vergonha”, “300 mil”, “os nossos impostos” – estas foram as palavras que anónimos instalaram na “instalação”. Feita a caramunha nos jornais e informada a polícia sobre “o delito”, a autarquia tratou imediatamente de “restaurar” a “obra”. À hora a que este jornal segue para a rotativa, o “restauro” estará já completo e a “escultura” devolvida à sua glória original. 

Mas eis que, subitamente, o caso ganhou foros de escândalo político. Quando toda a gente já tinha percebido que as pichagens se limitavam a reproduzir os comentários populares que podiam ouvir-se nos cafés, paragens de autocarro e supermercados de Leça da Palmeira e Matosinhos, criticando o uso de 300 mil euros dos cofres municipais numa obra de discutível qualidade “artística”, eis que o “escultor” Pedro Cabrita Reis descobriu no “acto de vandalismo” um misterioso sinal de origem ideológica.

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