Virgem ofendida no parlamento

A entrada em cena da proposta de Orçamento do Estado para 2022 acabou por relegar para a penumbra noticiosa o incidente parlamentar em que, mais uma vez, o primeiro-ministro António Costa exibiu a sua verdadeira natureza. Até hoje, nem um pedido de desculpa nem sequer uma admissão de ter perdido as estribeiras.

0
1088

Corria o debate no hemiciclo, com o chefe do PS a enaltecer o seu apregoado Plano de Recuperação e Resiliência, quando o deputado vimaranense André Coelho Lima, do PSD, usando da palavra no tempo regulamentar, acusou António Costa de ter feito um verdadeiro ‘road show’ durante a campanha autárquica com o PRR. E perguntou, directo e incisivo: “Não considera que, com esta atuação de um autêntico circunforâneo [pessoa que vagueia de feira em feira], desqualifica a sua função e o próprio PRR? (…) Com este bodo aos eleitores, esta tentativa de viciar os votos do eleitor, o senhor primeiro-ministro desprestigiou a democracia e instituições democráticas”.

O que Coelho Lima foi dizer!

Todo abespinhado e transpirando em abundância, Costa ripostou num tom fora de controlo. Começou por fingir que não sabia quem era o parlamentar ‘laranja’, perguntando-lhe desdenhosamente após consultar os assessores: “Coelho Lima, é?!”. E depois atirou: “O que desqualifica a democracia é um deputado que se senta na primeira fila da sua bancada ter um tal nível de ignorância sobre o que é o Plano de Recuperação e Resiliência e o que são os compromissos já inscritos na lei sobre a transferência de competências dos municípios”, disse Costa.

E acrescentou: “O senhor não me conhece de parte nenhuma e portanto eu não lhe autorizo fazer qualquer juízo moral sobre o meu comportamento, como eu não faço sobre o seu”, concluiu.

Perante as trocas de apartes, aplausos e apupos entre bancadas do PS e do PSD, o vice-presidente da Assembleia da República José Manuel Pureza, que presidia aos trabalhos, apelou a alguma calma. “O debate pode ser vivo, deve ser vivo, mas devemos saber-nos ouvir”, apelou, antes de dar a palavra ao deputado do PSD que se seguia, Paulo Leitão.

Nos bastidores da política, na imprensa e nas redes sociais, o despropósito do primeiro-ministro foi severamente censurado. Comentando dias depois o ocorrido em S. Bento, o jornalista José Mendonça da Cruz chamava a Costa “governante destemperado e de tiques absolutistas”, criticando a sua “inconcebível sobranceria” e a sua “governação tão propagandista como ruinosa”. E exemplificou referindo “a dívida, as cativações, o aumento da despesa corrente, a sobranceira incompetência e desserviço dos ‘serviços’ públicos, a saúde, a TAP, a ferrovia, a factura eléctrica e a política energética, o preço dos combustíveis, o fisco, a asfixia da iniciativa privada, a balança comercial, a saúde, o empobrecimento relativo, a apropriação de fundos pelo Estado, etc.”.

Comentando também o destempero de Costa, o escritor Barroso da Fonte recordou na imprensa: “António Costa deve estar magoado com os vimaranenses, desde que, na qualidade de ministro da Justiça, levou com uma posta de bacalhau demolhado no rosto, numa visita oficial à Cidade-Berço. Os vimaranenses lembram-se bem dessa desprezível cena, que eu próprio reprovei na imprensa da época. E, contudo, não foi tão ofendido em público como, agora, foi André Coelho Lima, vice-presidente da bancada do maior partido da oposição”.

Como é seu timbre, António Costa não deu ainda o menor sinal de estar arrependido por ter menosprezado a dignidade parlamentar do deputado André Coelho Lima. Este silêncio é também um auto-retrato. ■