Uma quedazinha para o lápis azul

Os três casos de interferência da directora de informação da RTP, Maria Flor Pedroso, em trabalhos jornalísticos incómodos reavivam o espectro do “lápis azul” de uma censura político-ideológica. Um problema recorrente numa televisão que pertence ao Estado e que há anos depende do Governo socialista, célebre pela sua tendência para o controlo obsessivo da informação.

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Talvez Maria Flor Pedroso, sobrinha do marido da mãe do primeiro-ministro, nunca devesse ter aceitado o cargo de directora de informação da RTP. Mas aceitou-o, há um ano, e nunca mais deixou de estar sob escrutínio. A proximidade de parentesco e a afinidade política entre a jornalista e o governante atraíam a luz forte dos holofotes – e o que essa luz iluminou não tem nada de bonito: uma reportagem incómoda cortada por alegadamente “não ser relevante”, uma investigação demolidora para o Governo posta na gaveta com uma desculpa esfarrapada e, nas últimas semanas, um trabalho jornalístico minado por contactos cruzados da directora da RTP com a instituição visada. Era demais.

Esta semana, o plenário dos jornalistas do canal televisivo do Estado acusou formalmente Maria Flor Pedroso de ter violado “deveres deontológicos” e de “lealdade” para com a redacção da RTP – um dia depois de, pelo seu pé, a directora de informação ter renunciado ao cargo.

A “gota de água” foi, mais uma vez, um trabalho da repórter Sandra Felgueiras, coordenadora do programa de investigação jornalística “Sexta às 9”. Felgueiras preparava uma reportagem sobre o Instituto Superior de Comunicação Empresarial (ISCEM), que em Setembro fechou portas por determinação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. O trabalho da jornalista prometia ser incómodo (pois visava suspeitas de corrupção no âmbito do processo de encerramento), embora, como mandam as regras da equidade jornalística, estivesse prevista a audição da directora daquela instituição de ensino. O que não estava previsto era que a directora de informação da RTP, ela própria antiga professora do ISCEM, tomasse a iniciativa de contactar a directora do Instituto a propósito do trabalho em curso e aconselhando-a a responder por escrito às perguntas que lhe fossem feitas.

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