No coração do povo

O ensaio de Manuel Silveira da Cunha sobre a Direita portuguesa, de que o nosso jornal publicou no passado alguns excertos em primeira mão, constitui um dos mais acutilantes estudos de Política dos últimos anos. Com a autorização do Autor, e a pedido de muitos leitores, O DIABO publicará a partir de hoje, e ao longo das próximas semanas, os principais capítulos desse ensaio, que nos meios conservadores se tornou já uma peça de referência.

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Portugal precisa de uma Direita, isso é um facto indesmentível. Mas o conceito de Direita é muito vasto, enganador, sujeito a equívocos, desde o conservadorismo católico e democrático, onde o autor destas linhas se insere, até ao totalitarismo selvagem de Hitler, que negamos veementemente. 

Como sabemos, não existem partidos de direita em Portugal. O PSD é um partido de interesses, o CDS é uma amálgama mal resolvida e o PNR um grupo de trauliteiros comandado por um homem pouco dotado e sem carisma para encarnar o papel de figura chave, um líder – que é afinal o grande objectivo inicial, a par de uma ideologia coerente, de um movimento de direita, ter um César que arraste as massas. Quanto ao Chega e à Iniciativa Liberal, ainda não mostraram realmente o seu valor como projectos de Direita.

Começamos esta série, de natureza ideológica e programática, com a evocação daquela que deveria ser a figura tutelar da Direita portuguesa, mas que envergonhadamente o enjeita. 

Era Salazar um homem de direita? O mesmo homem hoje teria as mesmas posições políticas, a mesma ideologia? Provavelmente, não. Não imaginamos como seria, mas seria anacronismo pensar que faria o mesmo que realizou entre 1928 e 1933, e a sua política subsequente. 

Salazar tem de ser visto como uma figura histórica de referência e não de forma apaixonada, como muitos o vêem ainda hoje. Salazar primava acima de tudo a ordem, a organização, o respeito pelos valores e pela tradição, boas contas públicas, a propriedade privada, não obstante a política de expropriações que realizou sob o comando directo de Duarte Pacheco, este um homem de acção, um verdadeiro fascista, segundo os moldes de Mussolini e de Gentile. 

Salazar defendia a propriedade privada, é certo, mas o papel do Estado como supremo organizador, acima dos cidadãos privados, dando privilégios especiais aos funcionários públicos, que teriam de ser respeitados como representantes da autoridade do Estado, tendo de ser exemplares na apresentação e nos cuidados a ter com a coisa pública, chegando em alguns casos a extremos de zelo que ainda persistem, felizmente, em alguns sectores dos serviços centrais do Ministério das Finanças e do Tribunal de Contas, para não ir mais longe.

Salazar era, claramente, mais um totalitário do que um autoritário; o sistema repressivo existia, mas as penas eram sempre aplicadas tendo em conta os princípios da legalidade. Eram aplicadas por juízes em tribunais e as penas nem sequer incluíam a pena de morte ou a prisão perpétua; a polícia política usava meios coercivos musculados, mas aplicados apenas a casos de opositores assumidos ao regime. 

No entanto, todo um sistema de tutela, de ordenamento da vida privada e do pensamento individual, eram a norma. Deus, Pátria e Família, uma tríade a que se juntavam o fado, o futebol e Fátima, no qual a Igreja tinha o seu papel normativo. 

A moral privada e pública, os bons costumes, o respeito pelas figuras importantes, o regedor, o presidente da Junta ou da Câmara, o padre, o professor, o médico, as Guardas Republicana e Fiscal, as diferentes Polícias, tudo se combinava para manter em ordem um povo que sofreu as terríveis inclemências do período da primeira república, que traumatizou violentamente a sociedade portuguesa que, mais do que tolerar Salazar, ansiou por este e respirou de alívio ao ter finalmente um regime em existia respeito, ordem, Duarte Pacheco, o Mundo Português, FNAT, estradas e as escolas que se desenvolviam aqui e ali.

As tarefas de Salazar foram colossais: um país endividado, pobre, colónias gigantescas e tremendamente subdesenvolvidas, quase sem qualquer valor acrescentado em termos de exploração mineira e agrícola foram a herança que recebeu do regime sinistro de Afonso Costa. 

Com Salazar dá-se um milagre colossal, restaura-se a ordem, pagam-se as dívidas, impõe-se um regime de austeridade que frutifica muito lentamente. As colónias são a pouco e pouco, muito devagar, pois os capitais escasseavam nos anos trinta, desenvolvidas. O analfabetismo é combatido e reduz-se drasticamente até 1974, de quase noventa por cento de analfabetos passa-se a 25% nas vésperas da revolução de 25 de Abril. 

Tudo se fez lentamente, o progresso é lento, pois a base de partida é muito baixa, a república de Afonso Costa tudo tinha destruído, as dívidas eram gigantescas e Salazar temia um desenvolvimento acelerado que poderia descambar numa espiral de caos e de dívida, o maior receio do ditador.

Salazar era obviamente de Direita, os seus homens admiraram abertamente Mussolini e tinham um grande fascínio por Hitler, como o demonstra António Ferro nas suas crónicas escritas na Alemanha e a sua entrevista a Hitler. A Gestapo, polícia secreta do Estado alemão, dá formação às forças policiais portuguesas, ensinando técnicas sofisticadas à PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) à qual se sucederia a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado). Repare-se que a palavra Estado surge em destaque nas suas estruturas de protecção policial. 

Salazar manteve-se no poder por diversas razões, a maior das quais é que era efectivamente admirado pelo povo. Subiu ao poder por conjuntura e competência académica; e na governação, não por carisma cesarista, como Mussolini ou Hitler, afastou-se sempre das multidões. Era um asceta, um eremita, cultíssimo, apreciador de música erudita, leitor assíduo, intelectual. A Salazar desgostavam as excessivas manifestações de afecto ou reclamos excessivos de lealdade, que via sempre com desconfiança e com algum cinismo dos preclaros. 

O povo português revia-se num homem que parecia ser mais do povo do que realmente era. Sobretudo, o povo admirava em Salazar aquilo que era um modelo de virtudes que não tinha. A maior virtude evocada pelos que se lembram de Salazar é que era austero consigo próprio. Poupava nas roupas e nos sapatos, era ecónomo das suas parcas propriedades na Beira. Salazar nunca enriqueceu com a política, não era corrupto e no final de tudo equilibrou um país na bancarrota, desenvolveu-o tanto quanto o seu engenho o permitiu; e, muito importante, numa altura de grandes convulsões internacionais, habilmente evitou que a Segunda Guerra Mundial chegasse a estas paragens, sabendo equilibrar-se entre as grandes potências e fazendo o fiel deslocar-se para a Inglaterra depois de ter percebido que Hitler estava condenado ao ter atacado a União Soviética. Depois disto tudo, conseguiu manter o Império unido em tempos de avanço frenético do bolchevismo. 

A Direita portuguesa tem enjeitado Salazar, mas deveria integrá-lo no seu pensamento, na sua ordem ideológica. O País real ainda se revê em Salazar, apesar de as esquerdas afirmarem repetidamente os óbvios e inventados defeitos do ditador, numa lavagem ao cérebro que não tem fim. Salazar ainda é um mito junto do coração do povo e esse capital não se deveria enjeitar.

Cinquenta anos depois, Salazar tem de ser avaliado no seu papel positivo, que supera largamente os defeitos que admitimos que teve, os maiores dos quais foram ter mantido um aparelho repressivo e não ter aberto o regime mais cedo. ■