Depoimentos acima de qualquer suspeita

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O jornalista Carlos Castelo Branco foi dos mais importantes comentadores da política brasileira na segunda metade do século passado. Não era homem de opiniões baseadas na ideologia, na filiação partidária, mas na impecável isenção. A sua escrita admirável levou-o à Academia Brasileira de Letras.

No regime militar manteve uma posição crítica quanto às limitações da actuação política, dando a perceber que entendia parte das restrições pela conjuntura política que o país vivia, com radicais de esquerda promovendo o que autodefiniam como “luta armada”, com sequestros no Rio de Janeiro de embaixadores dos EUA, da Suíça, da Alemanha, do cônsul-geral do Japão, em São Paulo, assaltos a bancos e atentados a instalações militares. Mataram, por engano, um oficial alemão que frequentava um curso militar, confundido com um boliviano que teria matado Che Guevara. No Rio de Janeiro, executaram dois tripulantes de um navio-escola inglês, aleatoriamente, em nome da “Revolução Popular”. Em São Paulo, um jovem oficial do exército americano foi assassinado diante da mulher e dos filhos por ser “um militar do imperialismo”.

Pois bem, Castelo Branco, a quem até as esquerdas respeitam pelo valor intelectual e pela figura humana afável, traça perfis dos mais importantes actores da cena política brasileira naqueles anos, num livro que reúne quarenta perfis, apresentado pelo laureado jornalista Gilberto Dimenstein, que afirma: “é excepcional como ele conseguiu extrair as paixões momentâneas, capazes de provocar ilusões, mitos e distorções, dissecando a personagem e, mais, dando-lhe vida, desvendando sua psicologia”. Como veremos agora, começando pelos presidentes militares e, depois, por notáveis do regime.

Castelo Branco – Quando da morte do presidente, de quem era parente distante, diz o jornalista: “Neste momento, ele recebe homenagens exaltadas e críticas cruéis. É realmente espantoso que a paixão política chegue a identificar, no retrato de um homem de bem, o perfil de um canalha”.

Costa e Silva – crítico severo do presidente, que viu a acção revolucionária surgir com força no seu governo, obrigando-o a utilizar medidas autoritárias, quando de sua morte, escreveu que era “naturalmente bom e despretensioso”.

Emílio Médici – este presidente, o mais duramente criticado e acusado de uso da força, não usou contudo os instrumentos de excepção de que dispunha, levou o Brasil a viver o “milagre” de crescer a mais de 10 por cento ao ano e lançou obras de grande repercussão, como a hidroeléctrica de Itaipu, com o Paraguai. Castelinho – como era conhecido pelos colegas – chega a falar da bondade do presidente, da sua humildade, simplicidade e a absoluta verticalidade do seu comportamento. Impressionante e verdadeiro retrato do presidente, que recebeu do governo português os restos mortais de D. Pedro e visitou Portugal durante seu mandato.

João Figueiredo – ao último dos presidentes do período militar, promotor da abertura política e da devolução do poder à sociedade civil, lembra ter sido o primeiro classificado em três dos cursos militares.

O significado desse registro histórico, recorrendo à palavra de um jornalista e escritor de carreira próxima da isenção, estimado e respeitado, é que os “media” brasileiros e mundiais, naturalmente com fortes reflexos em Portugal, demonizam o período de 21 anos em que o Brasil deixou de ser a 46ª economia do mundo para ser a oitava, chegando agora, depois dos anos da esquerda no poder, a 12ª. Não podendo falar das grandes obras públicas, dos avanços sociais, ficam no discurso ideológico de questões envolvendo confrontos das forças de segurança com a subversão e os habituais exageros da censura nos regimes fortes. Claro que nada de semelhante aos horrores dos regimes de esquerda. ■