Presença de Paulo Ferreira da Cunha na NOVA ÁGUIA (III)

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No seu mais extenso ensaio publicado na Revista, “Cidadania privada e cidadania pública: diálogos com Tomás Moro, Erasmo e Agustina” (décimo quinto número, 1º semestre de 2015), Paulo Ferreira da Cunha prova, uma vez mais, a sua mestria ecléctica – pois só ele poderia, à partida, relacionar três figuras tão diferentes entre si como Tomás Moro, Erasmo e Agustina Bessa-Luís… E o mesmo se diga a propósito do seu tão breve quanto luminoso testemunho sobre João Bigotte Chorão (vigésimo quarto número, 2º semestre de 2019), outro dos seus Mestres, onde começou por escrever: “Os nossos tempos (‘nosso enlouquecido século’) são maus tempos para João Bigotte Chorão e são bons tempos para João Bigotte Chorão./ São maus tempos por culpa deles mesmos e são bons tempos apesar de si próprios (…)”. 

Concluindo, enfim, desta forma, em círculo perfeito: “O nosso tempo é simultaneamente propício e avesso a João Bigotte Chorão. Nele assoma mesmo um barbarismo, um caceteirismo (as bengaladas camilianas e queirozianas seriam muito chiques) a que até alguns surpreendentemente acabam por sacrificar. Faz a este tempo muita falta a serenidade, a moderação, a elegância e a ironia deste oitocentista atento e interventivo, com quem os séculos XX e princípios do XXI tiveram o privilégio de contar./ Mas o maior problema, aquele que temos que enfrentar com coragem (que podemos pedir emprestada ao nosso autor, a quem não faltava), é um outro: em que medida essa obra vivíssima e interpelante vai ter leitores no futuro. Será que as novas gerações são de leitores? E de leitores que se interessem por este tipo de temas, e de estilo? Muitos escamoteiam o problema, embandeirando em arco de fácil optimismo (…)”. 

Também em círculo perfeito, diremos que o nosso tempo é simultaneamente propício e avesso a Paulo Ferreira da Cunha, agradecendo-lhe aqui a valiosa colaboração na NOVA ÁGUIA, que entretanto prosseguiu em 2020/21, e terminando, em tom mais esperançoso, com a transcrição parcial de um dos seus vários poemas publicados na Revista (décimo oitavo número, 2º semestre de 2016): “(…) Felizes os que laboram alheios às querelas do Mundo porque caminharão na senda da Paz./ Felizes os que combatem o bom combate, porque a sua Força irradiará Justiça./ Felizes os pacientes e os tolerantes, cuja quotidiana serenidade é exemplo e escudo./ Felizes os que olham sinceramente nos olhos e falam palavras de Verdade, porque deles é o Reino./ Felizes os que espalham a Verdade, a Beleza e o Bem, sem nada esperar em troca, porque neles mora a nossa Esperança”. Também por isso, gratos, Paulo. ■