O bom combate do intelectual de coragem

0
593

Ganha dimensão nacional o intelectual Antonio Risério, um baiano de 68 anos, jornalista, ensaísta, antropólogo e filósofo. Tornou-se referência no combate aberto aos movimentos racialistas, que levantam questões raciais com o tempero do ressentimento não apenas racial, mas esquerdista e social, embora sem o menor fundamento histórico ou sociológico. 

A “Editora Topbooks” editou dois de seus livros, “As Sinhás Pretas da Bahia” e “Sobre o Relativismo Pós-Moderno e a Fantasia Fascista da Esquerda Identitária”, que vai directo às incoerências deste tema que provoca problemas nos EUA e que começam a aparecer no Brasil, com brasileiros de origem africana, mesmo que já miscigenados, a usar cortes de cabelo no estilo usual no continente de origem. O comércio de escravos no Brasil foi proibido na metade do século XIX e, depois da libertação dos sexagenários, dos nascidos, em 1888, a princesa Isabel sancionou a denominada Lei Áurea, de libertação total. O advento da república, no ano seguinte, frustrou o projecto da monarquia de preparar os antigos escravos para o trabalho livre, com cursos e protecção social do Estado. 

Antonio Risério narra fatos do quotidiano, como a de uma mulher branca, em Salvador, que estava na estação de autocarros quando foi interpelada aos gritos por uma afrodescendente militante, que a acusava de usar um turbante “privativo” dos negros. E arrancou-lhe o acessório. Para revolta dos populares, pois a mulher estava sem cabelo em consequência de um tratamento oncológico. E o “Sinhás Pretas da Bahia” dá relevo às mulheres que conseguiam comprar a sua liberdade, geralmente trabalhando em residências, e que passaram a ter escravos e escravas, prosperando com o negócio. Estas libertas foram as responsáveis pela mistura na Bahia do catolicismo com o candomblé. 

Risério denuncia o racismo que condena os casamentos multirraciais, base da formação do povo brasileiro, exemplo de sucesso da colonização portuguesa, reconhecido internacionalmente, muito bem apresentada na obra de Gilberto Freyre, criador da tese de um luso-tropicalismo que serviu de caminho natural para esta sociedade, até aqui sem problemas raciais. No Brasil, o preconceito é social e não racial. Aliás, no Império, o Barão de Guaraciaba era negro, filho de alforriados e dono de escravos, sendo proprietário de um palácio na cidade de Petrópolis, em frente ao do Imperador, que hoje é sede da Câmara de Vereadores. O nosso escritor maior, Machado de Assis, era mulato. 

O curioso é que a questão de que tudo tem fundamento racista, incluindo a prisão de negros, tem inibido a acção policial no país. E constrangido empresas em que os seus seguranças ficam imobilizados para a protecção patrimonial. E faz parte do mesmo “pacote” o neo-feminismo, que hoje priva as mulheres de um galanteio pelo risco de uma acusação de assédio sexual. Quando uma acção policial incorre na morte de um branco ou “mulato claro”, a repercussão é mínima, o que pode configurar o racismo dos movimentos negros. Antonio Riserio tem sido duramente atacado por intelectuais de esquerda que, inclusive, condenam o jornal “Folha de S. Paulo” por publicar os seus artigos. Ele mesmo com história nos movimentos de esquerda. 

Neste carnaval fora de época, esse movimento activista esteve atento à veiculação de marchinhas emblemáticas do samba como “O Teu Cabelo Não Nega” – criação de Lamartine Babo, um dos grandes nomes da música popular, autor do hino dos clubes de futebol do Rio de Janeiro. “Cabeleira do Zezé” e Maria Sapatão, ambas de João Roberto Kelly, consagrado autor de carnavais passados, estão sob a acusação de serem ofensivas aos negros e a homossexuais. E o mesmo acontece com “Nega do Cabelo Duro”, com letra do jornalista David Nasser, um dos cinco maiores jornalistas do século XX. O que é um absurdo. 

“Ai, Que Saudade da Amélia”, outra música consagrada, com 77 anos de sucesso, entrou na lista. Nem respeitou o autor, Mário Lago, comunista que recomendava aos seus companheiros que, quando presos, denunciassem torturas mesmo que não tivesse ocorrido violência policial. A música é considerada ofensiva para as mulheres. 

A comunidade LGBTQIAP+ não sofre discriminação visível, pelo menos. O direito de opção é garantido por lei e a discriminação punida por lei. Esta “nova ordem mundial” não se baseia na fraternidade e na união e sim na divisão e discriminação. E a pressão é tão forte que, em entrevista, um actor pediu desculpas por ser heterossexual.

Querem impor um mundo dividido que existe mais nestas cabeças do que no mundo real. ■