Acontece, diz ele

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HENRIQUE NETO

Quando cheguei ao Parlamento em 1995 o que mais me surpreendeu foi o estado de desorganização que lá encontrei, não apenas na actividade do próprio Parlamento mas também no Grupo Parlamentar, e ainda hoje não tenho qualquer razão para pensar que nos outros partidos o nível de organização fosse melhor. Comecei por reclamar computadores, mas durante quase dois anos todos os dias tive de carregar o meu portátil.

A direcção do Grupo Parlamentar era tudo menos uma direcção, mas um parlamento dentro do Parlamento e, assim sendo, não havia verdadeiramente nenhuma coordenação e as intervenções eram decididas como num grupo de amigos.

Como trabalhávamos três e quatro deputados numa única sala, rapidamente me apercebi de que os interesses dos deputados eram imensos e bastante variados, desde a compra e venda de acções na Bolsa, até aos telefonemas constantes com pedidos, cunhas e propostas das mais variadas. Os autarcas eram os mais procurados, mas também ministros e secretários de Estado, empresas públicas e até bispos.

Não me surpreende, portanto, que na semana passada o líder parlamentar do PS tenha justificado o chumbo do relatório da Comissão de Inquérito sobre a Caixa Geral de Depósitos, por, aparentemente, ainda hoje não haver uma escala de serviço, ao dizer: “acontece”.

De facto aconteceu, como aconteceram as mortes em Pedrógão e o roubo em Tancos, como acontecem semanalmente prisões com origem em casos de corrupção. O SIRESP também aconteceu e continua a acontecer e, a propósito, existem duas investigações publicadas pela TVI que num país normal, em que o que acontece tivesse algum significado, haveria gente a ir parar à prisão. Por desleixo, por imprevidência e, porventura, por corrupção.

Durante a minha permanência na Assembleia da República foi-me dito vezes sem conta que aquilo não era uma empresa, o que eu já sabia quando lá cheguei, por inocentemente tentar defender a necessidade de um mínimo de organização.

Por exemplo, um relacionamento por escrito em vez do boca a boca reinante, quando descobri que se gastava mais tempo a descobrir o que cada um tinha dito ou feito do que a programar o que haveria a fazer; e ainda hoje julgo os deputados por aquilo que eles escrevem nos jornais, sendo que a esmagadora maioria não se dá a esse trabalho.

Felizmente, Deus escreve direito por linhas tortas e, assim sendo, o chumbo do relatório deve ter tido origem divina, evitando, no plano meramente formal, mais uma vergonha histórica aos senhores deputados de vários partidos. De facto, qualquer cidadão que tenha lido jornais durante os últimos oitos anos poderia ter produzido um relatório bastante mais sério, mais bem informado e com bastantes mais consequências do que o frete ali feito à memória de José Sócrates e acompanhantes. Um frete em tudo semelhante aos ataques feitos recentemente à justiça, a qual tenta, finalmente, colocar alguma ordem na casa, o que requer alguma organização, muita disciplina e bastante motivação de serviço público, tudo coisas relativamente ausentes na casa da democracia.

Por estas e por outras razões, uma das quais um voto pouco disciplinado que assumi numa comissão de inquérito, passei os últimos dois anos da minha missão parlamentar em oposição interna, para concluir que a utilidade de ali estar se aproximava do zero.

Foi a partir daí que me convenci de que as regras que me tinham feito deputado estavam erradas e que seria preciso mudar as leis eleitorais para que àquela casa chegassem os melhores portugueses e os mais capazes de serem representantes do bom e desprevenido povo português. Se possível, os mais organizados, os mais disciplinados e os mais rigorosos, além de trazerem consigo uma boa dose de motivação para servir os portugueses que ali os colocaram.

Como não é isso que acontece, o ACONTECE continuará a ser uma boa justificação para o líder parlamentar do PS e para uma boa parte da política nacional e, já agora, do próprio Estado: anafado, gastador, irresponsável, desorganizado e feito à medida do sistema político. E, para que conste: não penso, nem nunca pensei, que se devesse criar um sistema político e um Estado à imagem de uma empresa, mas talvez que os deputados não perdessem nada em saber como funciona uma boa empresa.