HENRIQUE NETO

O Governo prometeu submeter as suas propostas sobre as grandes obras públicas ao debate público e à aprovação da Assembleia da República, mas o que está a acontecer é uma barragem de propaganda feita pelo Governo e pelos ‘lobbies’ da rodovia e da empresa que comprou o sector da carga à CP e que defende o seu investimento, feito com material de bitola ibérica, a qual, compreensivelmente, se contenta em operar apenas em Portugal e numa parte de Espanha. Assim, nos debates já realizados, nunca são convidados quaisquer oradores que não alinhem pela vontade governamental.

Quanto à Assembleia da República, até agora nada, apesar de na ferrovia, ou no porto do Barreiro, os gastos de dinheiro público avançarem com estudos, concursos e demais despesas, isto é, se e quando a questão chegar à Assembleia da República já as decisões do Governo se tornaram irreversíveis e as pessoas e as instituições que têm ideias diferentes para apresentar são deixadas a falar sozinhas. Nada que não tenha já acontecido no passado, durante os governos do PS de José Sócrates, como nas auto-estradas, no aeroporto de Beja, nas parcerias público-privadas, ou na energia, decisões que hoje são universalmente consideradas excessos de voluntarismo ao serviço de ‘lobbies’ conhecidos e erros imperdoáveis, mas que enriqueceram muita gente. O Governo de António Costa prepara-se para fazer o mesmo.

Os planos do Governo de remendar as centenárias vias férreas e em bitola ibérica e a recusa de construir uma via de ligação a Espanha e ao centro da Europa, deixará a economia portuguesa prisioneira de uma ilha ferroviária, dependente dos centros logísticos de Espanha e sem acesso directo, por ferrovia, das mercadorias portuguesas aos seus clientes europeus.

Neste processo em que a propaganda política e o controlo da informação dominam o debate público, chegou-se ao ponto de negar os enormes investimentos realizados e em curso em Espanha, de ferrovia de bitola europeia, bem como as ligações que estão a construir com a rede francesa, tudo com uma grande participação de fundos comunitários que Portugal tem desaproveitado. Na última sessão de propaganda a que assisti, chegou-se mesmo ao ponto de justificar a inacção nacional na ferrovia com os futuros camiões movidos a energia eléctrica, como se os caminhos de ferro europeus e as decisões da União Europeia de criação de uma rede europeia interoperacional não fossem factos com que devemos contar.

Tal como nos governos de José Sócrates, o Governo de António Costa vive da propaganda e do controlo da informação, com o objectivo de proteger amigos e cargos públicos e enriquecer os mesmos ‘lobbies’ de sempre, o que não surpreende, já que se trata dos mesmos governantes e dos mesmos interesses. Neste processo, o Governo, sem vontade própria nas questões estratégicas, aceita tudo o que sirva os interesses de Madrid, seja na ferrovia, nas centrais nucleares, na energia ou nos rios. Uma espécie de Miguel de Vasconcelos na sua versão moderna, o que inclui ainda a entrega a Madrid dos interesses das nossas áreas fronteiriças, ou seja, ao poder que em Bruxelas têm os nossos vizinhos.

A ferrovia portuguesa de ligação ao centro da Europa, que só poderá acontecer com, pelo menos, uma nova linha em bitola europeia, é um desígnio essencial da economia portuguesa e da independência nacional relativamente aos interesses dos governos de Madrid. É isso mesmo que o Governo de António Costa está a colocar em causa, favorecendo lobbies e amigos vários.

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