Muitas palavras, nenhuma estratégia

“Mais uma vez, apostamos tudo na dependência da União Europeia e, sem estratégia conhecida, dirigimo-nos em todas as direcções e em todas vamos derreter os muitos milhares de milhões de euros a receber e ficaremos à mercê dos mercados logo que a situação económica estabilize e cada país seja obrigado a cuidar de si”

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Vivemos um tempo em que se avizinha a chegada de muito dinheiro da União Europeia e o Governo do PS prepara-se para o gastar e deixar o País mais endividado do que já está. 

A razão é que o Governo do PS não tem nenhuma estratégia conhecida para resolver os atrasos de Portugal relativamente aos outros povos europeus e as intenções de investimento, nunca explicadas ou debatidas com os portugueses, ou são uma manta de retalhos sem qualquer racionalidade ou rentabilidade, ou são mais casos da promiscuidade entre a política e os negócios, na continuidade dos exemplos anteriores do BPN, BES, Novo Banco, Banif, CGD, PT, EDP, Quimonda, Ongoing, Berardo, eólicas, barragens, autoestradas, cimentos, etc. Isto é, negócios que arruinaram o País e empobreceram os portugueses.

Presentemente, os objectivos económicos do Governo do PS, como o hidrogénio verde, o aeroporto do Montijo, a ferrovia em bitola ibérica e a Linha Circular do Metro de Lisboa, como o moribundo porto do Barreiro e a guerra em curso entre o Estado e os privados na TAP, são mais do mesmo, objectivos incoerentes entre si, e não representam nenhuma estratégia de desenvolvimento económico e social. São, quando muito, a continuação dos negócios de José Sócrates, o que não surpreende: os  interessados e os interesses  são os mesmos.

Para compreender a pobreza estratégica do Governo, basta ler o recentemente publicado PEES – Programa de Estabilização Económico e Social, uma enorme manta de retalhos, cujo resumo são 54 páginas, 34 programas e muitas centenas de milhões de euros para coisas tão grotescas como “Apoio à Organização de Eventos”, “Reforço da Capacidade de Produção Local de Equipamentos Inovadores e Estratégicos”, “Adaptar2.0: Adaptação e Modernização de Estabelecimentos Comerciais”, ou, em Inglês para que ninguém entenda: “Sale and Lease Back”. São 34 ideias avulsas sem qualquer sentido de direcção para a economia portuguesa. De facto, trata-se de uma mera distribuição de dinheiros públicos cuja gestão e controlo só pode ser inexistente, dada a diversidade das intervenções do Estado.

Este fim-de-semana li também a entrevista do ex-ministro Mira Amaral ao jornal “Sol” – e que diferença! Com a experiência de quem realizou o PEDIP e lançou o projecto Porter, as propostas de Mira Amaral são coerentes entre si e no seu conjunto formam uma estratégia de desenvolvimento e modernização das empresas, da economia e do País. Coerente, com linhas de actuação claras entre a função do Estado e o papel das empresas, mostra de forma distinta o modelo de industrialização, de investimento, nomeadamente estrangeiro, além do papel central dado às exportações.

Desde o 25 de Abril já foram escritos dezenas de programas semelhantes a este agora apresentado pelo Governo, que apodrecem nos armários do Ministério da Economia. Trata-se de amontoados de ideias e de palavras sem sentido de conjunto que, à custa da pobreza de quase todos, se atropelam entre si e sem nenhum sentido crítico ou direcção conhecida.

Portugal vive um momento muito crítico da sua história. A política portuguesa não compreendeu o enorme desafio da adesão às Comunidades e actuou como se tudo fosse uma festa. Desperdiçamos mal gastos muitos milhares de milhões de euros da União Europeia, em programas mal elaborados, e a corrupção aumentou a riqueza de alguns à custa do empobrecimento de quase todos. Com níveis de ignorância historicamente muito elevados em comparação com os países mais ricos, mas também relativamente aos países da adesão do Leste Europeu. Com uma posição geográfica no centro das rotas do Atlântico e entre os dois maiores mercados mundiais, convencemo-nos de que éramos apenas europeus e periféricos.  Apostámos numa economia de bens não transacionáveis e no mercado interno e sem sequer constatar que as nossas exportações são metade das exportações dos outros países da nossa dimensão. A Irlanda há muito que pertence a um outro campeonato.

Agora, mais uma vez, apostamos tudo na dependência da União Europeia e, sem estratégia conhecida, dirigimo-nos em todas as direcções e em todas vamos derreter os muitos milhares de milhões de euros a receber e ficaremos à mercê dos mercados logo que a situação económica estabilize e cada país seja obrigado a cuidar de si.

Por um dever de consciência, deixo aqui a síntese estratégia criada em 2003 pelo saudoso Professor Veiga Simão, pelo Dr. Jaime Lacerda e por mim próprio, na AIP, síntese inspirada na minha passagem pelo Japão, com a ideia de dar algum sentido de direcção aos governos de Portugal. Passaram dezassete anos e Portugal está hoje mais desorientado do que nunca, como se verifica por este Programa de Estabilização agora publicado pelo Governo.

Síntese Estratégica da AIP

“O futuro de Portugal depende da capacidade de conjugar a diversos níveis, os desafios e vantagens decorrentes da sua participação na U.E. com as oportunidades que podem resultar do desenvolvimento das suas relações extracomunitárias, em particular com os Estados Unidos e com os países da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa)”.

“O novo modelo económico (no contexto da União Europeia e da globalização) deve ter um enquadramento flexível e privilegiar o desenvolvimento e modernização dos sectores produtores de bens transacionáveis (produtos e serviços susceptíveis de concorrência nos mercados interno e externo), desejáveis nos mercados externos em virtude das suas características de inovação, tecnologia e valor”. 

“O factor humano qualificado, culto e motivado, a produção científica e tecnológica organizada e o acesso rápido, fácil e barato ao mundo através das telecomunicações, de sistemas de informação e transportes, são os recursos essenciais”.

“A criação de vantagens competitivas nos mercados europeus tradicionais e a diversificação das relações comerciais e de investimento impõem relação mais intensas da economia e do sistema científico e tecnológico com mercados e parceiros exigentes”.

Em suma:

“Um forte empenho da sociedade portuguesa na economia do conhecimento, baseado num crescimento sustentado, na qualidade e na inovação e orientado para aumentos significativos da produção de bens e serviços transaccionáveis”.

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Comparar os objectivos e os recursos escolhidos desta síntese estratégica com o que os governos portugueses andam a fazer há dezenas de anos, nomeadamente o actual Governo, pode explicar as razões de praticamente todos os países europeus estarem a passar-nos à frente e a criar melhores condições de vida aos seus cidadãos. Com a nota de que a pobreza do pensamento político e económico de António Costa não vai mudar. ■