O ministro MUITO ignorante

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O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, com a sensibilidade que o caracteriza, fez uma intervenção em Coimbra no 8º Forum Anual dos Graduados Portugueses no Estrangeiro, em que disse o seguinte: “um dos problemas das empresas portuguesas é a sua fraquíssima qualidade de gestão”; “Poderemos esperar sentados (se se supõe que o actual tecido empresarial português) é capaz de, por si só, perceber a vantagem em contractar pós-graduados e doutorados”. 

A CIP – Confederação da Indústria Portuguesa, pela voz do seu Presidente António Saraiva, já publicou um comunicado que colocou o ministro no seu lugar próprio. Depois disso, o ministro mostrou ao País o elevado nível das suas convicções, dando o dito por não dito e transformando as claríssimas afirmações que fez numa rábula política de má qualidade. Mas não só, o emérito socialista Jorge Coelho, na sede da sua propaganda, a  “Circulatura do Quadrado”, conseguiu o feito de transformar as muito claras palavras do ministro, afirmando primeiro que se as palavras fossem aquelas discordaria do ministro, mas que as palavras publicadas nos jornais e discutidas nas rádios e nas televisões não eram aquelas, seriam outras, que não explicou quais. Se os leitores ficarem confusos juntem-se a mim, apenas vos posso dizer que é disto que a casa gasta e é por isto que a casa socialista sobrevive. Modernamente, chama-se populismo. 

Claro que o ministro Santos Silva é mais conhecido pelas várias diatribes que são a sua marca e pelo seu continuado esforço de transformar o azeite em água, do que pela realidade e rigor das suas afirmações. Mas, mesmo assim, a diatribe de Coimbra ultrapassa tudo o que deveria ser permitido a um ministro que é suposto defender a economia portuguesa, de a promover no exterior e que é responsável, através do AICEP, pelo comércio externo e pelo investimento em Portugal. 

Por menos o ministro dos corninhos foi à vida, mas António Costa é amigo dos seus amigos e nada de relevante acontecerá neste reino da fantasia em que o Partido Socialista transformou Portugal. Penso mesmo que nenhum deputado do PS na Assembleia da República se preocupará com o assunto, os empresários socialistas, que os há, olharão para o lado, os meios de comunicação rapidamente esquecerão o assunto, até que surja uma outra notícia igual ou pior, que será igualmente esquecida.

Por alguma razão Portugal continua na cauda da Europa e por alguma razão somos ultrapassados pelos países da União Europeia do nosso campeonato. Já não falo da Irlanda, que nos cinco anos depois da Troika apresenta os seguintes resultados relativamente a Portugal: 


Irlanda Portugal
Imposto
sobre lucros
12,5% 31,5%
Taxa marginal
de IRS
20% 37%
Ranking de liberdade económica 6º lugar 72º lugar
Crescimento económico (2016-2018) 20% 6%
Salário
médio (2017)
2.479€ 925€

Estou certo de que os portugueses prefeririam que o ministro Santos Silva explicasse seriamente estas diferenças de crescimento económico e de desenvolvimento da Irlanda relativamente a Portugal, já que é ministro há dezasseis dos últimos vinte e quatro anos. Será que a culpa é dos empresários? E quem são os empresários?

Pessoalmente, gostaria de saber se o ministro já ouviu falar de uma coisa chamada economia dual, ou sobre a razão porque falou dos empresários em geral. Será que não sabe que em Portugal existem duas economias? Uma primeira economia composta de empresas modernas, muitas delas exportadoras, nacionais e estrangeiras, em concorrência com as maiores e melhores empresas mundiais dos mais diversos sectores, empresários que fizeram crescer as exportações de 35% do PIB para 45%? Será que não sabe que depois de um governo do PSD ter atraído a AutoEuropa para Portugal, as exportações portuguesas de componentes para automóveis aumentaram de cerca de 300 milhões de euros para mais de 8.000 milhões de euros por ano? Será que duvida de que este resultado foi conseguido pelos empresários portugueses? Ou pensa que foi o Governo? Se assim é, sugiro que leia os relatórios mensais da AFIA.

Será que o ministro nunca ouviu falar de uma outra economia portuguesa composta de mercados de rua, de pequenos negócios, cafés e restaurantes, da agricultura de subsistência, de muita pesca artesanal, de lojas de bugigangas e de limpezas, ou de biscates vários, onde milhões de portugueses tentam sobreviver dignamente, mas sem as qualificações necessárias que o Estado lhes negou?  Será que o ministro já se deu conta do nível de insucesso escolar existente em Portugal? Será que o ministro sabe que uma das poucas vozes que reclama há muitos anos creches e escolas de pré-escolar de qualidade, para os portugueses pobres, com alimentação e transporte, é um empresário?

Será que o ministro não se apercebeu ainda de que enquanto os governos de que fez parte corromperam o sistema económico e fizeram do Brasil, de Angola, da Líbia e da Venezuela os seus mercados privilegiados, com a corrupção correspondente, alguns milhares de empresários portugueses, em plena crise provocada pelo Estado, souberam conquistar novos mercados em países de maior exigência e de maior concorrência? Terá sido por ignorância, ou por não serem doutores? Ou qual a razão porque o Dr. Augusto Santos Silva não sabe, ou não quer, fazer intervenções rigorosas, que separem a ignorância da sabedoria, a competência de milhares de empresários que merecem o respeito dos portugueses, de outras empresas criadas por políticos, muitos do PS, para fazerem negócios por ajuste directo com o Estado?

Por estas e outras razões, quando o ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva falou em Coimbra, não foi apenas o doutorado que falou, foi também o ministro ignorante, o ministro que não sabe o suficiente de economia e menos ainda sobre os empresários portugueses. Esta é a única explicação que encontro para aquilo que disse e depois desdisse. 

Para terminar, direi que o ministro Augusto Santos Silva não tem todas as culpas pelo que diz. De facto, também é vitima  de um sistema político não democrático, composto por governos escolhidos por um primeiro-ministro entre os seus amigos, primeiro-ministro que é escolhido por um partido e apoiado em deputados na Assembleia da República que, também eles, foram nomeados pelas hierarquias dos partidos e não pelo povo, o qual, por sua vez, apenas escolhe o partido e não os deputados, o primeiro-ministro, ou o governo. Porque, se o regime fosse democrático, Augusto Santos Silva estaria na Universidade e não seria ministro vitalício como acontece, já que nos regimes verdadeiramente democráticos impera a concorrência, o mérito, o rigor e a decência intelectual. ■