Portugal é um País estranho onde nem tudo o que parece é

Alguém, num dia de inspiração, inventou que a lógica é uma batata e, porventura sem dar por isso, transformou o País num imenso batatal.

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Estamos a chegar ao fim de mais um ano, que é o tempo de balanços, o tempo de saber se estamos melhor do que há um ano, ou se pelo contrário a nossa vida andou entretanto para trás. Pela certa, sabemos que tivemos este ano eleições legislativas e que a sociedade portuguesa está dividida entre os que consideram o copo meio cheio e os que acham o copo meio vazio. Ou seja, metade dos portugueses estão certamente errados, ainda que não saibamos quais. Como diz o povo, certo, certo, só temos duas coisas: a morte e os impostos.

Para além disso, vivemos num País estranho, em que a maioria das coisas com que somos confrontados nem sempre faz sentido. Por exemplo, durante todo o ano de 2019 fomos ameaçados por quem nos governa de não haver água, mas afinal chegámos ao Natal com água a mais. Ainda durante 2019, fomos sujeitos à realidade virtual de que tínhamos o melhor ministro das Finanças desde Salazar, o Ronaldo das Finanças, lembram-se? Afinal, acabamos o ano com o homem caído em desgraça, com aqueles que o promoveram a fazerem-lhe as mais sérias acusações de insensibilidade social, ao ponto de a forte probabilidade de ele fugir do cargo ser hoje grande.

Todo o Governo tem vindo a ameaçar os portugueses com os perigos do fim do mundo por razões ambientais, só que o mesmo Governo não se preocupou com cheias, nem com a probabilidade de os diques do Mondego não aguentarem a pressão e rebentarem, ou com a necessidade de vazar as barragens antes da tempestade. Mas não só, vamos construir um novo aeroporto com água por todos os lados, a ver se não chove. 

Estamos em pleno debate do Orçamento do Estado e a festa governamental baseia-se nas contas certas e na glorificação do défice ter caído de cerca de -3,5% para +0,2 %. Todavia, o mau da fita foi Pedro Passos Coelho, que reduziu o défice de José Sócrates acima de 7,5% para 3,5%. Vá lá a gente entender isso, nomeadamente porque o maior crescimento da economia mundial deu-se nos últimos quatro anos e não antes.

Não menos perturbador é o facto de António Costa não se calar de que a economia portuguesa está a crescer mais do que a média europeia, mas por alguma razão a maioria dos países europeus tem um crescimento das suas economias muito superior ao nosso. Agora, para manter a afirmação estatisticamente válida, deixámos a Irlanda de fora, não se dê o caso de alguém mal intencionado perguntar a razão do crescimento daquele país.

Como se tudo isto não bastasse para perturbar a lógica de algum qualquer matemático encartado que por aí ande, os portugueses votaram num partido político de grande sucesso, que trata dos animais e de outras coisas sagradas como a Maçonaria. Vejam lá, que esse partido pensou ser possível, no Portugal socialista de 2020, obrigar os membros da ilustre irmandade a declararem não apenas os seus rendimentos (os declaráveis, está bem de ver), mas também a sua filiação em actividades secretas. Em que País viverão os amigos dos animais, ao ponto de pensarem que os maçons iriam prescindir de colocar os seus homens, agora também as mulheres, nos mais poderosos cargos do aparelho do Estado? Será que não estão disponíveis para um dia destes pagarem impostos de mil milhões de euros pela acção virtuosa da Maçonaria e do Padre Felícias no Montepio? Aparentemente, não lhes chegam os vinte mil milhões para o BPN, Caixa Geral de Depósitos, BES, Novo Banco e Banif? Bem hajam pela sua santa intenção.

Alguém, num dia de inspiração, inventou que a lógica é uma batata e, porventura sem dar por isso, transformou o País num imenso batatal. Senão, vejam só: o amigo de José Sócrates, Santos Silva, falou finalmente verdade ao juiz Ivo Rosa, quando disse: “Eu sinto-me mais devedor do engenheiro do que ele de mim (…), foi ele que me ofereceu tudo”. Ao ouvir o senhor dizer isto, com a clarividência que o distingue, não há como duvidar. Ainda sobre o Juiz Ivo Rosa, já pensaram que ele pode não levar a julgamento nenhum dos acusados do processo Marquês? Também não fará grande diferença, já que a alternativa é morrerem todos antes.

Quanto ao português António Guterres, lá do alto das Nações Unidas, distinguiu-se com a frase seguinte: “Se não mudarmos a nossa vida, podemos já não ter vida para mudar”. Como se compreende, trata-se de um pensamento bastante eficiente para convencer os portugueses a mudar de vida. Deixo de fora os outros, que podem não compreender a ideia.     

Para terminar este manancial de pensamento lógico à portuguesa, evoco o Primeiro-Ministro António Costa, que afirmou, para quem o quis ouvir, oferecer-nos um O.E. de continuidade. Como os anteriores pretendiam “virar a página da austeridade e relançar a economia e o emprego” e o actual tem como objectivo as “contas certas”, que permitam um saldo primário acima dos 3%, tudo bem. Se os leitores não compreenderem a questão da continuidade, o problema é vosso, mas não se preocupem, vai tudo dar ao mesmo.

Ainda sobre o O.E., para além do muito que haveria a dizer, se estivéssemos hoje dispostos a falar a sério, o que não é o caso, começaríamos por notar que uma das maiores despesas orçamentadas trata das chamadas  “despesas excepcionais”, que ninguém fora do Governo sabe o que são, ou para que servem, ou seja, uma despesa de dimensão semelhante à da educação, é secreta; pelo cheiro deve ser maçónica.

Como disse no início, Portugal é um País estranho onde nem tudo o que parece é. Por isso, neste final de ano, quando todos nos preparamos para a consoada e para viver em paz, do momento em que escrevo, talvez não seja o tempo certo para nos levarmos a sério. 

Apesar disso, desejo a todos os leitores, às suas Famílias e a todos os que fazem este jornal, um Natal Feliz, Paz e Saúde no Novo Ano. Não a brincar, mas a sério. ■