Foi com prazer que li a última edição do nosso Jornal. Apesar de Mário Soares ter falecido antes do fecho da edição, o jornal O Diabo ignorou olimpicamente o facto.

Mário Soares foi um dos fundadores do regime democrático pós vinte cinco de Abril de 1974. É um dos responsáveis pelo laxismo, pelo sistema corrupto, pelo nepotismo, deslumbramento e novo-riquismo do sistema putrefacto que acabou por tomar conta de Portugal. É certo que lutou contra os excessos pós revolucionários, mas o seu papel foi amplamente sobrevalorizado.

É hoje sobejamente conhecido que o Partido Comunista tirou o tapete a Vasco Gonçalves e que não tinha carta-branca do Partido Comunista da então União Soviética para tomar o poder em Portugal. Até a insuspeita trotskista Raquel Varela, historiadora, esclareceu esse facto na sua tese de doutoramento. O PCP nunca poderia avançar para a tomada do poder sem o apoio russo, nem nunca os americanos deixariam que isso acontecesse. Foram, aliás, os americanos que apoiaram Mário Soares e lhe deram argumentos musculados para este assumir a coragem que lhe é atribuída.

Soares sempre foi um homem incompleto, um laxista, que aparentemente nunca leu profundamente os dossiers. Soares era um homem que resolvia problemas e nunca pensou Portugal a longo prazo. Terá lido muito mas assimilado pouco, foi mais um leitor do que um actor cultural, terá tido amigos intelectuais mas nunca o foi por acção, terá pretendido ser por osmose, o que nunca é muito eficaz.

Por muito que se diga, Soares não tinha uma teleologia para o País, e nesse sentido não foi um estadista no sentido de um D. João II, de um Marquês, de um Fontes ou de um Passos Manuel. Tudo resultou de compromissos, acordos, leilões de postos e trocas, não como numa feira de gado mas como em negócios em que o povo português ficou sempre atrás dos interesses claros e menos claros dos políticos. São conhecidas as suas proximidades com os célebres negócios de Macau, as suas amizades com Savimbi, as suas amizades com Bettino Craxi, o corrupto e proscrito Craxi que Soares visitou no seu exílio na Tunísia, o mesmo Craxi que enterrou o partido socialista italiano. Era notória a amizade de Soares por Sócrates.

São também notórias as facadas que Soares deu nas costas políticas de Cavaco Silva enquanto este era primeiro-ministro, esquecendo a lealdade institucional que era devida pelo presidente a um chefe do governo eleito com maioria absoluta no parlamento. São demasiados “amigos” e demasiados atropelos à ética. Para Soares, o valor supremo é a “amizade” e não a ética. A amizade por canalhas, como Craxi ou Savimbi, deve ser reservada e não pública, mas Soares sempre exibiu essas amizades. Esqueceu que num homem de Estado é um homem de exemplo, o Estado não desaparece do homem ao cessarem funções públicas.

É assim natural que a morte de Soares seja um facto relativamente irrelevante para os leitores d’O Diabo que, com alguma clarividência, manteve o marajá do socialismo vivo mais uma semana à espera de alguma contenção e de uma reflexão menos apaixonada sobre um homem em quase tudo menor. Soares é aquilo a que se pode chamar “um homem sem estratégia”: tinha muita táctica, via a médio prazo mas nunca percebeu qual o lugar de Portugal no Mundo nem o modelo de desenvolvimento do País para o futuro.

Modelo que ainda está por fazer, hoje por força das circunstâncias, por os seus sucessores serem ainda piores, por manifesta falta de homens com perfil de estadista. Hoje até o medíocre António Costa é visto como um “génio político” face ao completamente nulo Passos Coelho. O próprio Paulo Portas é um tacticista que se retirou para ganhar uns dinheiros e o País está entregue aos herdeiros de Soares, o que não augura nada de bom para o futuro. Os próprios comunistas e bloquistas, que Soares combateu toda a vida, ganharam a guerra a longo prazo e derrotaram Soares em toda a linha, participando activamente do governo do país.

Qual é afinal o legado de Soares? Um índice de desenvolvimento humano miserável, muito abaixo do que já foi no final do século XX, cinquenta anos de corrupção, um País vendido ao estrangeiro, sem soberania nacional. Ninguém conta a verdadeira história no mito embrulhado por alguns “opinions makers” de que ‘Soares é Fixe’? O povo não engoliu as patranhas da comunicação social e ignorou o funeral do “pai da democracia” que esteve às moscas comparado com Eusébio Ferreira, Amália Rodrigues, Dr. Álvaro Cunhal, Doutor António Oliveira Salazar ou até o General Vasco Gonçalves e o Marechal Óscar Carmona. O povo fez bem, como bem fez O Diabo ao ignorar a morte agora irrelevante de quem já era um cadáver adiado.

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