Subversão do Estado: capitalizar a indignação

0
302

Ao longo desta série de artigos já expusemos o nosso ponto de vista de que o Estado português está assente na ilegitimidade, quer de facto quer de jure.

É urgente uma subversão do Estado, uma mudança de regime que elimine das mais altas esferas da governação a corja que tem destruído o país e prepara alegremente a sua extinção.

Para que exista uma mudança de regime é necessária a convergência de diversos factores, o primeiro dos quais será uma real vontade da população de arredar a falsa democracia partidocrática que tem corroído Portugal.

Sabendo que esta classe política é uma emanação do povo e consequência de uma ausência de elites intelectuais, sociais e políticas de Portugal, não é líquido que exista uma real vontade do povo Português de varrer o lixo que desgoverna Portugal. 

Se não existir essa vontade, terá de existir, pelo menos, uma motivação fortíssima das escassas elites que ainda existem, a começar pelos oficiais superiores das escassas forças armadas, homens e mulheres na força da vida, ainda longe das mordomias acomodatícias e da idade provecta da maior parte dos oficiais generais, e para quem o nome de Portugal, a sua soberania e a sua honra ainda importam.

Uma hipotética insurgência com vista a limpar o regime teria, no entanto, de ter sempre um forte apoio popular, sob pena de se ver votada ao insucesso. Temos assim a primeira forma de subversão, uma subversão conduzida pelas forças armadas descontentes com o rumo do país e precipitada pelas muitas ofensas directas a que as nossas forças armadas têm sido sujeitas ao longo dos últimos anos.

Outra forma de subversão seria obtida pela desobediência civil, através da rua, aliás legitimada pela própria ordem constitucional vigente, que dá o direito de resistência a acções ilegítimas do próprio governo. A subversão por via popular, como aconteceu nas infortunadas primaveras árabes, teria de ter sempre a colaboração das forças de segurança ou dos militares. Atendendo a que grande parte dos descontentes, os mais activos, corajosos e mais qualificados, nomeadamente nas camadas mais jovens, já emigraram, parece que este tipo de acção está condenado ao insucesso. 

Ficaria assim entregue aos escassos militares que ainda existem a substituição da actual ordem constitucional e a acção que substituisse o regime com a demolição de uma falsa democracia partidocrática que seria substituída por uma verdadeira democracia representativa, entregando os culpados por dezenas de anos de governação ruinosa e criminosa aos tribunais, referendando a questão do regime, e instituindo um parlamento que fosse eleito por círculos uninominais, para começar. 

Fica a questão da reacção da comunidade internacional e do dia seguinte à acção subversiva, que seria, certamente, muito adversa. Essa condicionante limitaria fortemente qualquer acção subversiva directa contra o regime actual.

Estas acções são assim, no Portugal de hoje, meramente hipóteses académicas. Pensamos que Portugal não tem qualquer possibilidade de ver uma revolução, uma mudança de regime por subversão directa. Qualquer mudança terá de ter hoje em dia outra natureza. Uma natureza mais lenta. 

A forma de subversão mais realista será a obtida por via eleitoral, com consequente revisão constitucional. Terá de radicar na existência de novos partidos que capitalizem o descontentamento, a indignação dos injustiçados de Portugal, a esmagadora maioria dos cidadãos.

Nas últimas eleições surgiram alguns partidos interessantes desse ponto de vista. Por um lado, tivémos o “Chega” de André Ventura, cujo comportamento populista, de apelo aos instintos mais básicos da populaça, como a sede de vingança contra os criminosos e os parasitas, pretendendo impor medidas contra o humanismo, leva ao aborrecimento de muitos sectores da direita católica e social. 

Por outro lado, temos a “Iniciativa Liberal”, carregadíssima de razão no que toca ao excesso de “socialismo” no Estado português e nos impostos, socializados pelo governo para beneficiar os “capitalistas” amigos do regime. Os seguidores da “Iniciativa Liberal”, têm, todavia, o senão de não serem conservadores nos costumes e na herança cristã portuguesa.

Tivemos também a espúria aparição de partidos como o “Livre”, que não mais se repetirão, depois do descrédito da deputada Joacine Moreira. 

O que é certo é que a esquerda continuará estagnada, com o PCP a definhar e o Bloco de Esquerda agarrado às suas contradições e traições aos seus diversos princípios fundadores. Contradições insanáveis que radicam na sua própria fundação a partir da UDP e PSR e que ainda subsistem hoje em dia. Sem uma verdadeira base ideológica unificada, o BE continuará a cavalgar as causas minoritárias sem uma verdadeira base filosófica. Tudo é vago, tudo é tonto, essa indefinição e esse oportunismo da esquerda caviar conduziu o BE a um beco sem saída e à estagnação.

Apesar dos afirmados princípios caceteiros, o “Chega” é a grande esperança de uma verdadeira subversão, mas falta muito tempo para que possa ter impacto na política nacional. Cremos que a sua margem de crescimento vai parar num máximo de 20% dentro de alguns anos. 

A subversão total apenas se poderá realizar com um líder muito inteligente, carismático e genuíno que ainda não surgiu na direita Portuguesa. Tivémos no século XX dois entes com esse carisma: o primeiro seria o demasiado efémero Doutor Sidónio Paes, o segundo foi o demasiado longo Doutor António de Oliveira Salazar. 

A história diz-nos que estes exemplos não se repetem com frequência. Mas apenas homens com este calibre conseguirão subverter por dentro o podre sistema português. ■

(Continua)