Três Portugueses

0
511

Jesus e Mourinho
Estes portugueses tiveram esta semana alguns êxitos em disciplinas desportivas, Jorge Jesus e José Mourinho. O leitor desconfiará certamente, uma vez que neste jornal e eu próprio não alinhamos em futebóis. Desengane-se, neste caso a questão do futebol é marginal, é um pretexto para se entender a mentalidade e o espírito de dois lados da mesma moeda da portugalidade em casa e pelo mundo fora.

A primeira nota é sobre Jorge Jesus, um treinador de futebol que nunca alcançou um grande sucesso internacional. Em casa ganhou três campeonatos beneficiando de um sistema que protege os grandes e que é, também esse sistema, um sintoma de uma enorme corrupção que corrói também o Brasil onde Jesus se radicou há alguns meses. Os três campeonatos ganhos em Portugal não são sintoma de qualidade, qualquer um que alinhe pelo Porto ou Benfica poderá ganhar campeonatos desde que saiba que a bola é redonda e tenha algumas noções técnicas.

É indiferente a qualidade dos treinadores onde a verdade desportiva está ausente da prática desportiva e em que um sistema mafioso impera. Essa é a razão da falta de competitividade internacional do campeonato português; a competitividade local está arredada à partida, investimentos honestos da parte da concorrência nunca conseguirão bater o sistema corrupto. Logo, Jesus estaria sempre condenado à mediocridade se se mantivesse em Portugal. O insucesso de Jesus com equipas portuguesas no estrangeiro deve-se a esse mesmo factor; como o sistema corrupto impera em Portugal e as cartas estão viciadas à partida, as suas equipas, beneficiadas pelo sistema nos campeonatos domésticos, nunca poderão ser competitivas internacionalmente, onde as cartas estão menos viciadas. Explica-se assim, de forma muito evidente, os sucessos locais de algumas equipas, que mal atravessam a fronteira em Badajoz levam pancadaria de três em pipa, e o insucesso de outras equipas em Portugal, como o Sporting de Braga, que mal atravessam a fronteira têm invejável sucesso. 

Jesus em Portugal nunca conseguiu provar que era bom treinador. Ganhar com o Benfica é normal neste sistema decadente e até um inapto como Rui Vitória ou um neófito como Bruno Lage conseguem títulos sem saberem ler nem escrever, mas na Liga dos Campeões levam tareia da grossa mal põem o nariz de fora.

É assim assinalável o seu sucesso no Brasil, país em que a preguiça, a falta de adaptação e de modernização dos treinadores às práticas modernas de treino e às recentes mudanças tácticas são deploráveis. A acomodatícia índole do técnico brasileiro fez do esforçado Jorge Jesus um caso de sucesso. Sendo lutador, trabalhador, esforçado e dotado da fina inteligência, a célebre esperteza portuguesa, a sua capacidade de improviso aliada à sua liderança e o seu espírito de observação naturais fizeram de Jesus um caso extraordinário de sucesso; os conhecimentos académicos não foram determinantes neste sucesso: o que determinou o seu triunfo foi o mesmo factor que tem feito muitos emigrantes incultos triunfar, a capacidade natural de observação e adaptação de muitos portugueses. Ganhou a muitas jornadas do final o campeonato brasileiro e, sobretudo, ganhou a taça maior da América com o Clube de Regatas do Flamengo, contra uma equipa argentina de futebol feio, agressivo, destrutivo, faltoso e mal-intencionado, apostou no futebol bonito, de ataque, com bom passe e sem maldade. Mereceu com todo o mérito e sem a menor ponta de sorte ganhar a taça; seria, pelo contrário, um grande azar se um golo fortuito dos argentinos lhes desse a taça sem terem feito nada que não fosse tentar destruir o sonho dos brasileiros nesse jogo que ficará na memória de brasileiros e portugueses. Bem-haja Jorge Jesus.

Outro treinador de sucesso tem sido José Mourinho, outra personalidade fortíssima, como Jorge Jesus, desta feita armado com bagagem académica.

No caso de Mourinho, a sua qualidade fica evidenciada nos esmagadores triunfos que obteve com uma equipa portuguesa nas competições internacionais. Sem os orçamentos dos gigantes europeus, lutando de igual para igual, Mourinho conseguiu dois triunfos com uma equipa portuguesa, o que prova a sua qualidade extraordinária, suplantando a miséria do futebol português com a sua inquestionável qualidade. Os feitos de Mourinho com o pequenino Futebol Clube do Porto suplantam de longe os seus feitos à frente de Chelsea, Real de Madrid ou Inter de Milão, equipas milionárias. As vitórias com o Porto provam que Mourinho é um gigante a organizar, a preparar, a estudar, a comandar e a fazer crescer os pequenos de forma a derrotarem os grandes. 

Enquanto Jesus é o arquétipo do peão, lutador, esforçado e diligente, Mourinho é o do líder, está na linhagem de um Duarte Pacheco Pereira, culto, senhor de si e do seu valor; é também extremamente trabalhador, observador e avaliador. Cínico, irónico, especialista em jogos mentais, em adivinhar o que se passa na cabeça dos adversários, Mourinho é um estratega de longo fôlego. Entrou com o pé direito nesta sua nova aventura inglesa. Necessita de ter na sua mão todos os dados e o apoio incondicional dos membros da sua equipa, o Tottenham. Para tal ou tem de dominar completamente os egos dos seus jogadores ou de não ter estrelas na sua equipa. A única estrela que pode brilhar perto de Mourinho é o próprio Mourinho. Mourinho domina os palcos e valoriza os campeonatos por onde passa. O futuro dirá se Jesus, oito anos mais velho do que Mourinho, ainda poderá entrar numa Europa do futebol milionário e se veremos um confronto Jesus contra Mourinho, o que seria um duelo verdadeiramente divertido. 

O que mais se aprecia em ambos é a demonstração das qualidades portuguesas, as do povo e as das escassas elites, reunidas e misturadas em dois seres tão distintos como Mourinho e Jesus. ■