O talentoso sr. Pedroso

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Nas últimas semanas, Paulo Pedroso, o coordenador da campanha da candidata à presidência da república Ana Gomes, desdobrou-se em entrevistas, falando muito de si, mas quase nunca da candidata nem dos temas que pareciam ser a bandeira desta candidata como a corrupção ou o tráfico de influências.

Quem ganha então o quê com a recente nomeação de Pedroso para a coordenação da campanha de Ana Gomes? Esta é uma pergunta a acrescentar às 13 que este autor já fez neste jornal sobre tal estranha escolha.

Pedroso e Ana Gomes têm muito talento para a política e para o regime português que têm sabido dominar como poucos. Têm arranjado lugares de “elite” para si próprios e ambos têm, aliás, ex-familiares e familiares em lugares semelhantes, muitíssimo bem pagos, de nomeação política, há décadas. Sabiam, pois, bem que nomear Pedroso para a campanha é derrota certa, excepto se têm informação de que o Presidente Marcelo não se vai recandidatar.  Assumindo que Marcelo se vai mesmo recandidatar, quem tem a ganhar como uma candidata à presidência que não quer ganhar ao seu opositor principal?

Uma vez que certamente nem Ana Gomes nem os Portugueses que acreditavam nela beneficiam da presença de Paulo Pedroso na campanha, é, pois, pertinente perguntar: quem beneficia com esta jogada política?

Este artigo descreve várias hipóteses sobre a nomeação de Pedroso, aparentemente suicidária, na candidatura Ana Gomes. O leitor que escolha aquela que lhe parece ser a resposta mais plausível à pergunta “quem ganha com Ana Gomes não querer ganhar”?  

Uma hipótese é que, se calhar, são Paulo Pedroso e o seu grupo mais próximo, incluindo Ana Gomes, que querem mesmo ganhar algo no futuro, que não a presidência. Objectivos mais pessoais ou partidários e menos nacionais. 

Tendo vivido em muitos países e participado até em várias campanhas eleitorais, o autor destas linhas nunca assistiu a uma campanha em que um mero coordenador ofuscasse tanto o candidato. Ainda por cima, um coordenador no mínimo problemático perante a opinião pública.  

Ora o  talentoso senhor Pedroso para a política não dá  ponto sem nó; a propósito, nos países que não bajulam a classe política, só os médicos ou doutorados é que são chamados de doutores; daí o termo mais correcto de “senhor”, além da óbvia referência cinematográfica a uma personagem talentosa, o Sr. Ripley, bom estratego em proveito próprio que sacrificava amigos e amigas quando lhe convinha.

Sabemos que o nosso regime se caracteriza por troca de favores entre políticos e familiares de políticos nomeados há décadas por via política em vez de qualificações, experiência profissional numa área técnica ou resultados avaliados. É esta forma de corrupção, o nepotismo e favoritismo a níveis sem igual no resto da Europa ocidental, juntamente com o dinheiro do Estado esbanjado em negócios privados de amigos de políticos, que tem feito de nós uma espécie de África económica dentro da Europa próspera. 

Pedroso parece guloso por protagonismo, mesmo entre excelentes “jobs for the boys” de nomeação directa ou tácita do regime que nos arruinou, vê-se a ele próprio como uma vítima injustiçada, como nunca se o cansa de nos dizer. Deve ser por isso que Ana Gomes afirma que Pedroso está “sempre do lado dos injustiçados”. O problema é que parece ser do lado dos “injustiçados” privilegiados políticos e seus familiares favorecidos pelo regime há décadas, com salários de topo mundial completamente desligados das qualificações ou dos salários médios dos portugueses. Ora os realmente injustiçados são a maioria da classe média portuguesa que tem de pagar tudo isto à classe política lusa fora de controlo.  

Não precisamos de atravessar o Mediterrâneo, mas há milhões de portugueses injustiçados a terem de emigrar para poderem trabalhar e terem salários condignos, uma percentagem de emigração sem igual noutros países europeus. É este o preço da injustiça de sermos governados sem critérios de mérito e termos cá dentro só os políticos ou familiares com excelentes salários, muitíssimo acima da média nacional e até da europeia para as mesmas posições, qualificações técnicas ou resultados passados.

Quem mais pode beneficiar com a candidatura suicidária de Ana Gomes?

No imediato, Marcelo e Costa beneficiam porque assim deixa de haver oposição credível à hegemonia regimental da sua liderança bicéfala do país tão apreciada, por exemplo, pelos grandes devedores do BES/Novo Banco. Estes ficam descansados e com sigilo assegurado. Marisa e Ferreira beneficiam porque assim seguram melhor os eleitores dos seus partidos nas presidenciais. Ventura beneficia, nem sequer pelas tiradas fáceis que faz sobre o “assunto Pedroso”, mas sobretudo por, na percepção de muitos portugueses, mal ou bem, ficar isolado como oposição ao sistema habitual e seus resultados.

Também podem beneficiar, a médio termo, aqueles que dentro do PS sempre viveram da política, logo nunca criticaram seriamente a corrupção e só querem iludir-nos momentaneamente que são oposição a Costa-Sócrates, algo que lhes dará jeito, interna e externamente ao PS, quando vier nova bancarrota. Pressentem que esta está cada vez mais próxima, com o desbaratar dos fundos europeus que começa já com o despedimento do presidente do Tribunal de Contas. Querem uma porta de saída, se necessário.

Recordo que neste jornal O DIABO este autor, elogiando então genuinamente Ana Gomes, já tinha referido que uma “presidência anticorrupção” só seria credível e possível “sem ‘jotas’ partidários de meia idade” a procurarem “branquear-se” de décadas de silêncio perante os negócios misturados com política que faliram a nação. Recordemos que Pedroso e os seus “jotas” mais próximos foram também estrategos e activos no derrube do honesto e íntegro Seguro a favor de Costa. Com esse instinto de sobrevivência do regime e resistência a mudanças, tivemos pelo menos já mais meia década de negócios misturados com política socráticos ainda piores agora com Costa. 

Numa das poucas vezes que este autor viu Pedroso em pessoa, ele estava em Setúbal a promover e elogiar o Vitorino em 2015, nessa altura em todos os conselhos de administração de empresas favorecidas pelo regime às custas dos contribuintes e da competitividade económica do país, e o Vieira da Silva de toda a família no Governo e Parlamento. Estava ao lado de Ana Catarina Mendes, nessa altura sua esposa, que também os elogiava, elogia e ambiciona chegar a Primeira-Ministra, tal como querem também os outros secretários (ou quase secretários) das juventudes partidários nascidos na geração de 1970. Todos esses ‘jotas’, assumidamente ou por interpostas pessoas, estão já a infiltrar-se na candidatura de Gomes jogando quer ao lado de Marcelo quer com Gomes. Assim ganham sempre e podem sempre dizer que apoiaram ou não apoiaram a escolha de Costa, conforme lhes convier.  

Cada vez mais não basta dizer, como Ana Gomes diz, sobre certas personagens, que são “militante(s) de esquerda democrática”. Como se isso fosse automaticamente uma credencial sacrossanta e inquestionável de dedicação à população e ética. Conhecemos demasiados exemplos em que esse não é o caso. É precisamente por isso que a abstenção cresce tanto em Portugal e, quer cá quer pelo mundo ocidental em geral, as classes médias se têm afastado da hipocrisia da classe política bem incrustada há décadas no Estado. 

Oxalá Gomes perceba aquilo que afirmei noutro artigo que escrevi, esse no ‘Observador’: “Há uma sede enorme da população portuguesa por finalmente ver coragem e ter verdadeira representação política” diferente dos mesmos de sempre. ■