Entre a Grécia e a Ibéria (I)

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Já foi mil e uma vezes assinalado o fascínio de Sophia de Mello Breyner pela Grécia (pela “Grécia antiga”, obviamente), que, de resto, avulta, de forma expressa, em muitos dos seus poemas. Recordemos aqui apenas três:

Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela
Ao olhar sem fim o sucessivo
 

Inchar e desabar da vaga
A bela curva luzidia do seu dorso 

O longo espraiar das mãos de espuma
Por isso nos museus da Grécia antiga 

Olhando estátuas frisos e colunas
Sempre me aclaro mais leve e mais viva 

E respiro melhor como na praia
(…)

No Golfo de Corinto
A respiração dos deuses é visível: 

É um arco um halo uma nuvem
Em redor das montanhas e das ilhas 

Como um céu mais intenso e deslumbrado
E também o cheiro dos deuses invade as estradas
 

É um cheiro a resina a mel e a fruta
Onde se desenham grandes corpos lisos e brilhantes 

Sem dor sem suor sem pranto
Sem a menor ruga de tempo
 

E uma luz cor de amora no poente se espalha
É o sangue dos deuses imortal e secreto
 

Que se une ao nosso sangue e com ele batalha
(…)

Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo 

Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta
Ressurgiremos ali onde as palavras
 

São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
 

Na aguda luz de Creta
Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
 

São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente 

Na luz limpa de Creta
Pois convém tornar claro o coração do homem
 

E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta

Agenda MIL: 13 de Dezembro, 15h30 – Faculdade de Filosofia da Universidade de Santiago de Compostela (Seminário 330): Apresentação da NOVA ÁGUIA nº 24.