O tempo de Marcelo

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Manuel Silveira da Cunha

Marcelo, no seu discurso sobre os fogos, exigiu a cabeça dos dirigentes responsáveis pela inacção, pela criminosa omissão de meios, que causou a segunda catástrofe maior, a coroar milhares de outras catástrofes que não chegaram aos jornais mas que destruíram a vida de milhares de portugueses. Cento e nove seres humanos perderam a vida em fogos neste Verão.

Chocou-se o PS de Costa porque este tinha avisado o Presidente de que a ministra iria sair no Sábado seguinte depois do conselho de ministros especial, sobretudo destinado a marketing político, e que veio a ter lugar para aprovar em cima do joelho medidas que não vão ter qualquer efeito prático, numa espécie de vulgarização do anúncio de legislação que, depois, nunca terá efeito e que nunca será regulamentada. Criou-se uma chamada “estrutura de missão” para os fogos, chefiada por um chamado “especialista” do conglomerado das celuloses que domina o mercado nacional do papel. Um especialista em eucaliptos.

O problema principal de Portugal, no que diz respeito aos fogos, são as celuloses e os eucaliptos. A indústria de celulose é um cancro que vai destruindo Portugal. A plantação de mais de um milhão de hectares, actualmente serão 1.200.000 ha, tem contribuído de forma selvática para os fogos. Há mais problemas, mas o eucalipto, com o seu amor pelo fogo que o ajuda a propagar a espécie e a ocupar o espaço de outras espécies de crescimento mais lento, é realmente o maior propagador de fogos que vitima Portugal. Escolher como chefe da estrutura de missão mais um que vem da indústria da celulose é mostrar que, de facto, os portugueses não interessam para nada, que as mortes não contaram nem um pouco e que o eucalipto e as negociatas associadas é que estão a dar.

Percebeu-se assim que o conselho de ministro, onde Constança Urbano de Sousa já não esteve, serviu apenas para reforçar a “indústria do fogo”. A Constança, aliás, só andava a fazer figura de corpo presente a nomear a cambada incompetente associada ao PS para os órgãos da protecção civil e tão tapadinha que deixasse passar em claro todas as negociatas relativas aos incêndios sem estragar demasiado os negócios. Percebe-se isso também pelo novo ministro dos fogos, Eduardo Cabrita, que é um peso-pesado do PS e do aparelho. Percebe-se também pelas contratações denunciadas pelo programa “Sexta às nove”, já sob o mandato de Cabrita, contratações sem rei nem roque e ao desbarato das empresas do costume, que a protecção civil vai continuar na mesma.

Depois de ida a ministra, Joaquim Leitão, o putativo comandante da ANPC, demitiu-se e ninguém se dá ao trabalho de aceitar a sua demissão, quase quinze dias depois da mesma, a 18 de Outubro.

Nos momentos de grande urgência, de catástrofe, percebem-se quem são os grandes homens. Costa demonstrou, aqui, que apenas está preocupado em gerir a sua agenda política e em controlar os danos que as catástrofes podem trazer ao seu governo e ao PS, mantendo de caminho o abominável SIRESP, de quem já ninguém fala, e criação sua, mais outra colossal negociata. Costa está apostado em manter o actual ‘status quo’ que falhou, um ‘status quo’ corrupto, venal, em que todos os associados ganham, menos o povo português que pode morrer em paz e sossego que é para o lado em que o primeiro-ministro dorme melhor. Seria “infantil” substituir a ministra, “não me faça rir a esta hora”, “estas tragédias vão-se repetir muitas vezes”, “sejam resilientes”, ou, melhor, tentem arder sem dar nas vistas, acrescento eu.

O que se vai passar em seguida? Simples, vai-se descobrir que a Força Aérea não tem meios, e que dotar a Força Aérea de meios vai ser “muito caro e custar muito ao País”, depois vai-se pagar mais ainda às empresas de meios aéreos, e isso vai custar mais cinco ou seis vezes do que custaria reforçar de meios a Força Aérea. Fica aqui a previsão escrita na pedra d’O Diabo.

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Fica o tempo de Marcelo. Inquieto com o destino do povo português, exige medidas, exige demissões, não se conforma com o tempo da cambada de políticos, apenas preocupados em salvar a sua imagem e continuar os negócios dos fogos e da celulose, fala antes do tempo da cambada, porque, ao contrário do que diz implicitamente Costa com a história de que estas catástrofes são inevitáveis, o princípio, para Marcelo, não é aceitar que se deixe arder o País e o povo português. Não, não é verdade que estas catástrofes se tenham de repetir. Há solução.

Primeiro, paguem-se indemnizações justas e rápidas, a quem perdeu tudo por culpa da inacção do Estado gerido por esta corja. Depois, acabe-se com o eucalipto. Proíba-se totalmente a sua plantação. Corte-se o que há e transforme-se em papel, depois a indústria de terceiro mundo da celulose que se vá de Portugal. Finalmente, plante-se o País de alto abaixo de sobreiros, azinheiras, zambujeiros, carvalhos, olivais, e ainda de pomares verdes. Volte-se a contratar pessoal para os pinhais do Estado, para os manterem saudáveis. Invista-se a sério na ruralidade, na pastorícia, refaça-se o cadastro, emparcele-se o País, criem-se cooperativas de base local para gerir, em conjunto, as propriedades de presentes e ausentes devidamente emparceladas. Distribuam-se os rendimentos de forma justa. Os terrenos abandonados serão confiscados. A indústria dos queijos, porco preto, presuntos, turismo rural, azeite, castanha, a produção de biomassa para produção de energia, tudo isso terá uma rentabilidade colossal, aliás amplamente estudada. Será uma oportunidade imensa de reordenamento global do País, podendo muitas pessoas retornar à Natureza e à felicidade de uma vida mais saudável, estando próximas das grandes cidades, com as vias de comunicação que existem.

Portugal é um País pequeníssimo. O povo português, com bons guias, motiva-se e agiganta-se. O tempo de Marcelo seria esse, o tempo de fazer e de agir, o tempo de grandes causas, o tempo dos projectos, o tempo de se cumprir o nosso destino nunca cumprido. Infelizmente, não tem o poder executivo – e quem o tem, Costa, está mais interessado em que a ministra saia no Sábado seguinte para não se chamuscar muito a sua imagem. É triste, é infame, mas é aquilo que temos e nem com Rui Rio, homem de orçamentos certos mas de vistas curtas, se vislumbra qualquer esperança. Sobra o tempo de Marcelo. O único tempo probo e recto é, neste caso, o tempo de Marcelo.

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