O Terço da Joana

1
895

Quando o Papa Francisco chegar a Fátima, na próxima sexta-feira, verá iluminar-se a peça de Joana Vasconcelos intitulada “Suspensão”. É feita de contas brancas, tem 26 metros e vai ser iluminada pela primeira vez precisamente na noite de 12 de Maio, quando o Papa Francisco entrar no recinto do santuário.

A questão é a fealdade do objecto, a sua classificação como arte, a sua originalidade. Questões que têm uma importância fundamental naquilo que se define como arte hoje em dia. É nesta classificação que a discussão sobre o Terço da Joana se deve fixar, e não noutras.

Existe velho um ditado português que diz que “gostos não se discutem”; esse adágio é fruto de uma enorme contradição portuguesa, a velha luta entre a piolheira popular e o advento do Quinto Império. Para fixar ideias: o cantor Quim Barreiros representa o primeiro Portugal, os pensadores Agostinho da Silva e António Quadros ou o poeta Fernando Pessoa, entre tantos outros, representam o segundo. Esta é uma visão simplista, pois figuras nobres e dignas como o Velho do Restelo são difíceis de catalogar. O Velho do Restelo é uma figura conservadora, temerosa, ancestral, uma figura que abomina certamente o Quim Barreiros, mas que não abraça Camões ou Pessoa. Como Roger Scruton já nos ensinou bastas vezes, os gostos discutem-se e discutem-se fortemente. Essa discussão chama-se Estética.

Segundo o jornal ‘Observador’, o reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, referiu que quando foi lançado o desafio à artista para realizar uma obra que marcasse o centenário tinha a noção “da enorme dificuldade que representava”, “criar uma obra de arte à escala deste enorme recinto era um desafio fora do comum”. “Este desafio foi felizmente aceite”, adiantou Carlos Cabecinhas que, dirigindo-se a Joana Vasconcelos, deu os parabéns, dizendo-lhe que “criou uma peça extremamente fotogénica” que “consegue dominar este enorme recinto de oração”. Lá que domina, domina!

A questão muito abordada pelo sacerdote é que se trata de uma encomenda de uma putativa “obra de arte”, uma obra de arte que vai emoldurar a entrada daquela que é, indiscutivelmente, uma verdadeira obra de arte, a extraordinária Basílica da Santíssima Trindade! Desenhada por um artista, o grande arquitecto grego Alexandros Tombazis, tem o desenho de engenharia de José Mota Freitas que lhe valeu o maior galardão internacional de engenharia do Mundo.

Próximas da Basílica há esculturas de artistas a sério como Domingos Soares Branco e Joaquim Correia, na própria Basílica situam-se os Painéis do Rosário de Pedro Calapez, e há intervenções dos artistas Kerry Joe Kelly, Francisco Providência, Catherine Green, Vanni Rinaldi, Benedetto Pietrogrande, Marko Ivan Rupnik, Czeslaw Dzwigaj. A notabilíssima execução da Cruz Alta, localizada no exterior da igreja, em ferro, com 34 metros de altura, é do grande escultor alemão Robert Schad. A escultura suspensa no pórtico de entrada é da autoria da artista cipriota Maria Loizidou. E há ainda um notável conjunto de painel de azulejos da autoria de Álvaro Siza Vieira.

É junto deste conjunto de artistas, representações dignas do Portugal do Quinto Império, encomendas esclarecidas da Igreja, que figura o Terço da Joana, uma lídima representação do outro Portugal, não menos Portugal, não menos típico, um Portugal que o Velho do Restelo também abominaria, mas um Portugal menor, o Portugal da sardinha assada e do chouriço na brasa que tem o seu lugar num parque de merendas. Terá lugar num altar do Mundo? A Igreja antes contratou Miguel Ângelo, Caravaggio, Palestrina, Mozart ou o Schad que realizou o Cristo lindíssimo da Cruz Alta que será eternamente posto ao mesmo nível dos ‘leds’ e bolas da Joana.

É caso para invocar um raio divino, uma aparição colérica do Senhor dos Exércitos, que dê utilidade ao Terço.

COMPARTILHAR
  • Mi

    Totalmente acordo.